5 de mar de 2013


A Essência do trabalho


   Muitas perguntas andam sendo feitas a mim relativas ao trabalho que faço. A mais recorrente é se existe algum livro ou livros nos quais a essência do trabalho que venho desenvolvendo estivesse presente, para que se possa ampliar sua compreensão. Se existe um livro que melhor representa e onde sua semente se encontra, este é "O Valor dos Valores" baseado em palestras dadas pelo mestre Swami Dayananda Saraswati, traduzido para o português com a coordenação da professora Glória Arieira. O tema central do ensinamento é o conhecimento de si próprio e a descoberta da felicidade que já somos. Para a aquisição deste conhecimento e para a descoberta desta felicidade, o valor pelos valores universais e seu cultivo em nossa vida, é fundamental.
 
   Abaixo temos um primeiro contato com esta biografia.                           

   No início do livro surge uma pergunta: "Qual o valor que um valor possui para mim mesmo?". É dito por Swami Dayananda que um valor só é um valor se ele é de valor para mim. Então, desde o início, existe um convite para reflexão a respeito dos valores.

   São abordados 5 versos do capítulo 13 da Bhagavad Gita. Nestes 5 versos, o mestre (Krshna) fala ao discípulo (Arjuna) sobre os 20 valores essenciais para preparar a mente do buscador para conhecer a si mesmo. Valores estes, que devem dirigir nossos pensamentos e ações.

   Estes valores são: Ausência de vaidade (1), de pretensão (2), de egoísmo (3), de posse (4), de apego ao filho, mulher e lar (5), não-violência (6), adaptabilidade (7), retidão (8), limpeza (9), persistência (10), dedicação ao mestre (11), comando sobre a mente (12), desapego aos objetos sensoriais (13), reflexão sobre a limitação do nascimento, morte, velhice, doença e dor (14), constante neutralidade diante do desejado e do indesejado (15), firme devoção com a visão de não-separação, (16), recolhimento a lugar tranquilo (17), necessidade da companhia das pessoas (18), clareza do objetivo do conhecimento (19), e constante vivência do autoconhecimento (20).

   A Bhagavad Gita denomina este conjunto de valores como 'Jnanam', que significa conhecimento. 'Jnanam' representa, aqui, as diversas qualidades da mente, na presença das quais, em medida relativa, o conhecimento de si pode ocorrer.

   Então, o 'Jnanam' dos 20 valores, conduz e prepara a mente para a conquista do autoconhecimento. Os valores conduzem ao autoconhecimento, pois sua exata compreensão e aplicação na vida diária são capazes de tranquilizar a mente proporcionando um campo propício para a realização do mesmo.

   Ao mesmo tempo, uma mente que possui os valores apropriados não é garantia de que o conhecimento de si ocorrerá, e sim, que poderá ocorrer. Daí vem sua medida relativa. Entretanto, uma coisa é certa, sem os valores apropriados não ocorrerá.

   O objetivo do livro é mostrar quão valiosos são os valores, primeiramente reconhecendo-os e depois colocando-os em prática em nossa vida. Além disso, o livro ajuda na compreensão da vida, na resolução dos conflitos e na obtenção de maior paz e felicidade. É dito que os conflitos nascem na nossa mente porque não assimilamos os valores morais, éticos e espirituais.

   Este livro também oferece uma visão do funcionamento da mente humana (1), a base lógica para a necessidade dos valores (2), e a maneira para praticá-los.

   Os valores então são essenciais. Uma mente preparada é aquela que os descobriu e os assimilou. A mente é o lugar onde o conhecimento acontece. A preparação da mente é necessária.

   O trabalho que venho desenvolvendo tem como base os valores, principalmente a não-violência (AHIMSA).



25 de mai de 2012


Meditação
(Parte 2)

O Efeito do Karma Yoga

     Com a atitude de Karma Yoga é possível aprender através das nossas experiências. Uma mente reativa não tem capacidade de aprender, pois não consegue ver as coisas objetivamente. A experiência é o melhor professor se a assimilamos sem reagir; mas na maior parte do tempo não aprendemos nada com elas e acabamos por nos arrepender.
     O aprendizado acontece nos momentos em que a nossa mente não está reativa, por mais raros que estes momentos sejam. Não há como aprender quando sua mente está identificada com a raiva ou qualquer sentimento parecido. Este estado mental não é receptivo. Por causa destas reações, nos tornamos incapacitados de aprender pelas nossas experiências.
     Se um resultado não está de acordo com nossas expectativas, o aceite, ou mude sua trajetória, e aja novamente. Se nossa ação falhar, não somos uma falha se aprendemos a partir desta experiência. Iremos desenvolver assim uma mente não reativa, capaz de aprender.

Os Valores Éticos = Qualidades da Mente = Jnanam

     O Gita denomina um conjunto de valores como jnanam, que significa conhecimento, e representa as diversas qualidades da mente na presença da quais, em medida relativa, o conhecimento do Ser pode ocorrer (o conhecimento do Ser é tanto o meio quanto o fim do ensinamento de vedanta). E quando a ausência dessas qualidades é significativa, o autoconhecimento não ocorre. Jnanam prepara a mente para vedanta.
     Karma Yoga ajuda a ganhar o preparo mental que capacita você a adquirir o conhecimento que é a libertação (moksha).
     Jnanam são os valores necessários para preparar a mente para o conhecimento. Os valores são um estado da mente que reflete certos valores universais e atitudes éticas. A descoberta e a assimilação dos valores por si só constituem a preparação da mente, tudo o mais é secundário. O jnanam (conhecimento) dos valores é a preparação para a conquista do autoconhecimento. Isso não quer dizer que o conhecimento do Ser ocorrerá se a mente tiver os valores apropriados, mas que poderá ocorrer. Sem os valores apropriados não ocorrerá.
Resumindo:

- valores apropriados presentes: o autoconhecimento pode ou não estar presente.
- valores apropriados presentes: o autoconhecimento pode ser obtido.
- valores apropriados ausentes:  o autoconhecimento não pode ser obtido.

     Um valor é a consideração por alguma coisa, ou uma atitude apreciada ou estimada pelo dono do valor. Em sânscrito, um valor ético pode ser definido como Dharma, que é um padrão ou norma de conduta originado na maneira pela qual eu desejo que os outros me vejam ou me tratem. O que espero ou desejo dos outros se torna meu padrão de Dharma (comportamento adequado). Não posso “fugir” dos valores porque ninguém, vivendo neste mundo, pode fugir dos relacionamentos, e com os relacionamentos vêm os valores. Se desejar que a outra pessoa se comporte de certa maneira, então estou preso a um sistema de valores.
     Karma Yoga é cuidar e observar meus gostos e aversões, isto pode apenas ser feito e trabalhado através de nossa interação com o mundo externo.
     Ninguém quer a mente em conflito. Na presença de conflito, problemas com a mente são inevitáveis: autocondenação, ansiedade, arrependimento, culpa, sentimento de fracasso. Os conflitos aparecem quando sou incapaz de viver de acordo com um determinado valor que, consciente ou inconscientemente, aceito. Quando não posso viver de acordo com minha estrutura de valores, fico em conflito e sofro de culpa.
     Valores: não violência, constante vivência do autoconhecimento, apreciação do objetivo do conhecimento da verdade, firme devoção com a visão não dual, reflexão sobre a limitação do nascimento, morte, velhice, doença e dor, adaptabilidade, etc. Valores que devem estar presentes para que a mente do buscador esteja preparada para o conhecimento do Ser.
     Valores éticos: universais no conteúdo e relativos na aplicação.

Karma Yogi
     O Karma Yogi também tem gostos e aversões, mas os abandona, significando que ele não é guiado por eles. Ao invés de ir por “devo fazer isto” e “não devo fazer aquilo”, ele vai pelo que deve ser feito, de acordo com Dharma e Adharma. Neste caminho, os gostos e aversões da pessoa são abandonados até certo ponto e aqueles que permanecem são buscados de acordo com o Dharma.
     Ao satisfazer qualquer desejo, existe uma escolha envolvida. As escolhas são determinadas pelos gostos e aversões de alguém. Se algo tem que ser feito, o Karma Yogi faz independente se ele gosta ou não. Agindo assim ele renuncia a determinados gostos e aversões.

Dhyana
     Capacidade da mente de ficar com ela mesma ou com o objeto de meditação.   
     É para estabilidade mental.
     Na meditação, ato de meditar, somente a mente está envolvido. É uma ação nascida puramente da mente. Pode ser rezar, contemplar ou qualquer outra disciplina interior; é puramente interior.
     Para obter firmeza (constância, regularidade) mental e a calma (serenidade, tranqüilidade) necessária para adquirir autoconhecimento existe a disciplina interna da meditação.
     Exercer o estado de ausência de distrações.


Preparação para Meditação
     Qualquer coisa que entre em contato com os órgãos dos sentidos é chamada de objeto. Os órgãos dos sentidos são expostos aos objetos dos sentidos significando o mundo. 


Órgãos dos sentidos            Objetos dos sentidos

Olhos                                   cores e formas
Ouvidos                               sons
Nariz                                   cheiros, odores
Língua                                 gostos, sabores
Pele                                      texturas


Como Manter os Objetos Externamente
     Todos os objetos (pensamentos) entram na mente através dos sentidos. Na meditação, todos os objetos externos devem ser mantidos externamente. Você simplesmente deixa de pensar neles. Você direciona sua mente para alguma outra coisa. Não tem que rejeitar, reprimir ou mandar embora os objetos, apenas deve-se deixar eles exatamente onde estão.
     Os objetos, primeiramente, entram na sua mente por você pensar neles. Entretanto, você não pode culpá-los por estarem em sua cabeça. Não pense sobre eles e eles não estarão lá.
     Os objetos já estão externos e, não dando importância para eles, irão manter-se externos. Assim se mantém os objetos externamente.
     Os olhos são mantidos fechados. Manter os olhos fechados facilita o pensar num objeto de meditação. Fecham-se os olhos para eliminar distrações.


Observando a Respiração
     Manter um ritmo entre inspiração e exalação. Ficando consciente do processo da respiração, observando-a, ela se torna calma. Ligado a isso vem o relaxamento do corpo e o aquietamento da mente.

Livre do Medo 
     A pessoa se vê livre de desejos, medo e raiva. A pessoa fica emocionalmente madura no sentido de não estar mais sobre o feitiço do desejo, medo ou raiva. Tal pessoa é naturalmente sempre livre, por causa do autoconhecimento. Conforme o processo de autoconhecimento acontece, a identificação com os pensamentos (sentimentos) vai diminuindo.
     Meditação é uma prática (sadhana), um meio para adquirir a libertação.

Toda Ação Nasce na Mente 
     Na verdade, toda ação nasce na mente, mas não necessariamente permanece nela. Apesar de todas as formas de ação emanar da mente somente, elas nem sempre param nela (ex.: ação de falar). Mas em Dhyana, a atividade nasce na mente e permanece nela, então é puramente uma ação mental. Uma atividade que é uma prática, um meio, yoga.
     Toda preocupação é também uma atividade mental. Uma pessoa preocupada constantemente não pode dizer que está meditando.
     Dhyana é uma ação mental onde o assunto é pré-determinado, o tema é o ilimitado Brahman. È uma atividade mental onde todos os pensamentos que não se referem ao objeto escolhido são removidos, e onde apenas aqueles que se referem ao objeto escolhido fluem por um período de tempo.

Uma Mente “Viajante” Faz Parte da Meditação 
     Quando a mente “viaja” fora do objeto da meditação, deve ser trazida de volta para o objeto meditado. Este dispersar faz parte da meditação. Quando a mente perder o foco, simplesmente traga-a de volta. Se a mente não perder o foco em nenhum momento, isso é chamado samadhi (estar muito próximo do objeto a ponto me ver como o próprio objeto).

Meditação não Envolve Apenas Vontade/Disposição 
     Meditação é algo que alguém pode fazer se sentir vontade, mas apenas será efetiva se a mente estiver preparada. Uma disposição para meditação não é criada pela vontade, mas você pode ir sentar e tentar meditar. Tal disposição ocorre quando você está pronto para isso e esse preparo é o que chamam de prontidão mental. Adquirir esta prontidão não ocorre com o tempo, mas é criada por viver uma vida de Karma Yoga.

Obstáculos 
     Doença, inércia, dúvida, negligência, preguiça, equivocação na tomada de decisões, inconstância, instabilidade.

Receita para o Sucesso na Prática 
     Dedicação, desapego, esforço, confiança, atenção, energia, sabedoria.



Meditação
(Parte 1)
          Existem 2 tipos de sadhana (prática), ambos devem ser seguidos:

- Karma Yoga (meio externo para moksha)
- Dhyana         (meio interno para moksha)

Karma Yoga    
     É o que deve ser feito por você, com uma atitude adequada e seguindo valores.
     É o entendimento de que temos o controle somente na ação, nunca sobre os resultados.
     Uma atitude em relação à ação. Atitude que nos desidentifica de gostos e aversões.
     Cuidar e observar meus gostos e aversões.
     Purificação mental.
     Estabilidade da mente.
     Sabedoria na ação. Dissociação de nossa relação com o sofrimento.       


Toda Ação Nasce de um Desejo
     Desejos são divididos em 2 categorias: gostos, algo que você quer proteger ou adquirir e  aversões, algo que você está tentando evitar ou até mesmo se livrar. São divididos também em outras 2 categorias: “úteis”, desejo de fazer, ensinar, doar, escrever, estar atento, consciente e aqueles que desestabilizam a nossa mente, desejos capazes de tirar o foco da nossa prática, da nossa vida, a paixão por alguém, um objeto; ou desejo por algo que não pode ser alcançado neste determinado momento de nossa vida, desejo que tira a nossa objetividade. Como indivíduos, estamos sujeitos a isso. Nossas experiências e julgamentos irão ditar nossas escolhas, nossos gostos e aversões. Nossas escolhas representam a dualidade, que representa a limitação.
     No Bhagavad-Gita, o mestre diz para o discípulo que primeiro tendo sob seu controle os sentidos, que abandone este desejo (aquele que tira a atenção da sua mente) pernicioso que destrói o conhecimento (III; 41). Fala também que os sentidos são superiores. A mente é superior aos sentidos. Superior à mente é o intelecto. Aquele (o Ser) é superior ao intelecto (III; 42). Os sentidos são superiores aos objetos que dependem da nossa capacidade de percepção. Sem os órgãos de percepção, os objetos não poderiam ser observados. A mente é superior aos sentidos, pois guarda a sensação dos objetos. Mas a mente tem a capacidade de fantasiar. Sem o conhecimento do Ser ela começa a achar que é o Eu. A mente é uma ferramenta que tem a capacidade de te conduzir ao Ser, mas ela deve ser disciplinada (yoga). Mas se ela estiver sob o comando dos desejos, você se perde em si mesmo. O intelecto é superior à mente, pois é o intelecto o responsável pela nossa capacidade de pensar objetivamente. E o Ser superior a tudo, mas se faz necessário um espaço onde possa se refletir claramente. O mestre conta que, desta forma, conhecendo aquele superior ao intelecto, segurando a mente com a mente, abondone o inimigo na forma de desejo que é difícil de ser vencido (III; 43).

     O mestre (sábio) compreende que ele é felicidade, e então se vê livre do desejo de se tornar feliz acumulando objetos; a sua felicidade não depende da presença ou ausência das coisas.

O Problema dos Gostos e Aversões
     Problemas são causados somente por uma mente dominada por gostos e aversões.
     Todos vivemos em um mundo pessoal condicionado pela sociedade, cultura, religião, pais e professores. Como resultado dessas influências cada pessoa tem seus gostos e aversões. Gostamos de objetos e sentimos que eles nos farão felizes. Desgostamos de outros e achamos que na presença deles nos tornamos infelizes. Há também objetos e pessoas aos quais somos indiferentes porque a presença destes não nos causa felicidade ou infelicidade. Não vemos os objetos do mundo como eles são, mas como eles são interpretados pela mente que tem gostos e aversões peculiares. Quanto mais sensível uma pessoa se torna, mais sutis se tornam os gostos e aversões. Ter preferências não é um problema em si, mas se alguém não gosta de certa nuance, não a verá como realmente é. Por isso se afirma que uma pessoa não vive em um “mundo público” (o mundo objetivo), mas em seu mundo privado, de fantasias. Tudo aquilo que buscamos é guiado por gostos e aversões. Pensamos que seremos mais felizes, confortáveis, adquirindo objetos que gostamos e nos livrando daqueles que não gostamos. Uma pessoa pode se sentir desconfortável por inúmeras coisas. O desejo de ser feliz nos condiciona a adquirir ou rejeitar de acordo com os gostos e aversões. Então, a felicidade se torna incerta porque depende do sucesso da busca; e ainda se torna mais incerta pelo fato de que os gostos e aversões mudam constantemente. Até que gostos e aversões sejam neutralizados, não podemos ser objetivos em relação ao mundo. Mesmo quando agimos conduzidos por gosto ou aversão, se não reagimos ao resultado, estes serão neutralizados. Agir sem depender do resultado ou dos vários fins da ação. O resultado de uma ação raramente está de acordo com aquilo que esperamos. Se é melhor do que esperamos, nos sentimos bem sucedidos; se recebemos menos do que esperamos, pensamos que somos fracassados. Mas se tomarmos os resultados objetivamente, nosso gosto ou aversão não poderá criar nenhum sentimento de sucesso ou fracasso. Não serão mais capazes de causar qualquer tipo de tristeza.
     Karma Yoga é para purificação mental, por liberar a pessoa de seus gostos e aversões.

Gostos e Aversões: Obstáculos para o Conhecimento 
     Uma pessoa com gostos e aversões pode ouvir o que está sendo dito pelo professor: “Você é ilimitado”, porque a mente está atenta e então está relativamente livre; a mente te deixa aprender a partir do momento que gostos e aversões não interferem. Estes momentos de aprendizado onde temos um lampejo de nossa realidade estão isolados da nossa personalidade. Mais tarde, quando estamos longe do professor e do ensinamento, estes lampejos desaparecem e tudo o que resta é a personalidade novamente governada pelos gostos e aversões.
     Agindo com uma mudança em nossa atitude neutralizamos gostos e aversões, e assim, obtemos uma mente relativamente livre com a qual possamos aprender.
     Uma atitude contemplativa é algo natural, mas somente pode ser descoberta depois de estarmos livres de gostos e aversões.
     O mundo objetivo não cria problemas para nós. Problemas são causados somente por uma mente dominada por gostos e aversões. Se você tem uma mente contemplativa, percebe que os gostos e aversões pertencem à mente, e que você não é a mente. Cultivar uma determinada atitude em relação à ação e seus resultados neutraliza os gostos e aversões, essa atitude é Karma Yoga.

Prática de Meditação
     Imaginem estarem próximas a uma montanha, uma floresta, com um rio silencioso, flores por todos os lados, pássaros cantando. O mundo é belo; você parece não desejar mais nada; você acertou suas contas com a vida e se sente bem feliz. É a mesma pessoa que respondia à simples pergunta: “Como vai você?” com um milhão de reclamações. Como estas reclamações desapareceram? Quando você viu a montanha, você não quis que ela fosse diferente; ou você gostaria que ela tivesse picos congelados? A mente aceitou tudo como está. Ela não desejou que o rio fosse mais rápido ou devagar, ou que o céu fosse mais azul, ou que os pássaros estivessem mais afinados. Você mesmo não quer ser diferente. Você sentiu a vontade de falar com alguém? Neste momento você está alegre e em paz. Este é o estado mental que nos conduz à contemplação.

Uma Atitude em Relação a Ação
     Podemos escolher como agir, mas o resultado não está em nossas mãos. O resultado é determinado pelo momento em que a ação é realizada. Não podemos evitar o resultado, estes são governados por leis que estão além do nosso controle. Encontramos-nos em um mundo governado por leis que não foram criadas por ninguém daqui. Nascemos de acordo com leis e a colheita dos resultados também está de acordo com estas leis. Esta é a lei natural, a qual podemos tentar “entender, mas nunca mudar”.
     Quando agimos, esperamos um resultado, mesmo que saibamos que estes não estão sob nosso controle. Possuímos gostos e aversões, e queremos que as coisas aconteçam de acordo com estas identificações. Gostos e aversões são identificações. Esta expectativa por um resultado é natural, não é o problema em si; o problema está na reação ao resultado. “Aja esperando um resultado; aja para que você consiga o que você quer; planeje e execute tua ação; mas se o resultado for completamente diferente das suas expectativas, apesar de tanto você o desejar, não reaja e não se sinta frustrado”.
     Então, não temos que abrir mão de nossas ações. Se apenas transformarmos a nossa atitude perante ás ações, nos tornaremos pessoas diferentes.
     Uma ação prende e continuará a prender uma pessoa somente se a atitude não for correta. A ação (respirar, comer, urinar, etc) nunca poderá ser deixada completamente. A nossa permanência no corpo físico não pode ser cumprida sem ação.


24 de mai de 2012


Parte 11
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

29- VERSO 15

       hiranmayena patrena satyasyapihitam mukham  /
       tattvam pusannapavrna satyadharmaya drstaye   // 15 //
 
- HIRANMAYENA = dourado.
- PATRENA = pote (patra). “Pote” que encobre a minha visão.
- MUKHAM = face (ou porta).
- SATYASYA = da verdade (verdade de Brahman).                                   
- PUSHAN = o protetor (o sol).
- TVAM = você.
- APAVRNA = abra (então).
- SATYADHARMA = aquele que cumpriu com toda a sua obrigação, fez o que tinha de ser feito.
- DRSHTAYE = para a visão.
Comentário: Essas pessoas que fizeram essas meditações e contemplações, têm em mente (estão visualizando), a morte. Quando eu morrer é que alguma coisa de bom vai acontecer. Não estão preocupadas com essa vida aqui, estão preocupadas com o que vai acontecer depois que morrerem. Estas pessoas meditam, rezam, fazem orações, para que, no momento em que morrer, a porta se abra (para felicidade, para o imortal). Estão envolvidas em vários rituais para que, depois dessa vida, possam ser levadas por um caminho de luz que as permitam ver a verdade.
     Que o sol possa abrir a porta da escuridão permitindo que entre luz, permitindo que a pessoa possa ver a verdade, depois que morrer.
Obs: Estas pessoas vão para estes mundos e buscam proteção nas várias deidades.

30- VERSO 16

       pusannekarse yama surya prajapatya vyuha rasmin samuha tejah  /
       yatte rupam kalyanatamam tatte pasyami yo'savasau purusah so'hamasmi   // 16 //

- PUSHAN=(aquele que) alimenta e protege todas as pessoas (Ó sol), viajante solitário.
- EKARSHE (ekarshi) = (Ó você que) vai para todas as partes.
- YAMA = grande controlador do mundo, do universo (controla ação e resultado), controlador do karma, controlador da morte (pois quando nosso karma acaba ele diz: “está na hora de você ir embora”).
Comentário: YAM = também significa “controlar”. Yamas e niyamas  controles, disciplinas.
- PRAJAPATYA (prajapati) = criador.
- RASHMIN = raios.
- KALYANATAMAM = (aquele que é) o mais belo.
- RUPAM = forma (mais bela).
Comentário: Ó sol, criador, controlador, mais belo (vocês que são fonte de toda luz); que possam me ajudar neste caminho depis da minha vida (após a morte), que possam me levar para um lugar onde vou estar bem, me protejam.
     Quando morrer, me ajudem, protejam, nesse caminho de luz.
     Eu mesmo sou esse Ser.
Comentário: São várias mediações conduzindo a pessoa à morte, à continuidade da morte, sem a liberação. A pessoa tem que ir para vários lugares diferentes.

31- VERSO 17

       vayuranilamamrtamathedam bhasmantam shariram  /
       Om krato smara krtam smara krato smara krtam smara   // 17 //

- VAYU (vayuh) = prana, o ar.
- ATHE (atha) = agora (a pessoa está morrendo, indo embora deste mundo).
- EDAM (idam) = este (vayuh).
- ANILAM = todo o ar.
Comentário: Morte = o prana deixa o corpo físico e se une ao prana cósmico.
     Que o meu ar individual se encontre com o ar total.
     A pessoa está morrendo, mas está consciente.
     O Yogui é aquele que faz todas estas várias meditações para que, no momento da morte, tenha consciência de que está morrendo, e poder conduzir a sua vida para um plano mais elevado.
- SHARIRAM  = (este) corpo físico.
- BHASMANTAM = vire cinzas.
Comentário: Que eu consiga abondonar o apego físico.
- KRATO (kratah) = Ó mente (aquela que é movida pela deliberação).
- SMARA = lembre.
- KRTAM = daquilo que eu fiz.
Comentário:  Ó mente, lembre do que eu já fiz, de tudo que já fiz desde a infância e do meu objetivo último. 
     A pessoa está morrendo e pensando em tudo que já fez, ações feitas, rituais, coisas boas, desejos que teve, para onde quer ir. É uma meditação no final desta vida.
     Que no momento da morte eu consiga deixar tudo para trás e me unir a minha deidade predileta.

32- VERSO 18

       agne naya supatha raye asman visvani deva vayunani vidvan   /
       yuyodhyasmajjuhuranameno bhuyistham te namauktim vidhema   // 18 //

Comentário: Ai então, a pessoa pode ir também por este outro caminho.
     Caminho do sul, o sul é a morte. Quando o sol está passando mais perto do hemisfério sul. Caminho do norte, o norte é a imortalidade; é o caminho de luz.
- AGNE (agni) = fogo. 
     É o mensageiro dos deuses, aquele que leva minhas orações, rituais, oferecimentos, aquele que brilha. Também é um dos nomes de Brahman.
- NAYA = conduza (a nós).
- SUPATHA  = SU (bom) + PATHA (caminho) = bom caminho.
- ASMAN = nós,
- RAYE = (da) luz, (do) bem.
- VISHVANI DEVA  VAYUNANI  VIDVAN = Ó Senhor, conhecendo todas as ações e meditações.
- ENO (enah) = erros.
- JUHURANAM = (Ó Senhor) destrua, livra-me (da minha conta de karmas).
- BHUYISTHAM = foram muitos.
- TE NAMAH = saudações a você (Ó deva).
- UKTIM  VIDHEMA = oferecemos estas palavras (de saudações para que, morrendo neste momento, eu possa encontrar um caminho melhor).

ITI  ISHOPANISHAD = aqui conclui-se a Isha Upanisad.

Om  Shantih  Shantih  Shantih  Om  paz  paz  paz


Texto produzido após estudo dos CD's da Professora e Mestra Glória Arieira sobre a Ishopanishad.




Shri Guru bhyo namah 


Parte 10
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

24- VERSO 10

       anyadevahurvidyaya'nyadahuravidyaya  /
       iti susruma dhiranam ye nastadvicacaksire   // 10 //

- ITI = assim (nós).
- SHUSHRUMA = escutamos.
- DHIRANAM = sábios, pessoas (que vieram antes de nós, que falavam sobre esse tema todo).
- YE (ya) = que.
- NA (nah) = para nós.
- TAD (tat) = essas coisas (isso).
- VICACAKSHIRE = ensinaram; instruíram; falaram.       
- ANYAD (anyat) = algumas, outras (pessoas).
- EVA = ainda (também).
- AHU (ahuh) = dizem (disseram).
- VIDYAYA = que o caminho é de meditação.
- AVIDYAYA = que o caminho é de ação.
Comentário: “Ação” é chamado sempre de “ignorância” pois a ação perpetua a ignorância.
Comentário: Algumas pessoas dizem que muitas coisas podem ser alcançadas através de meditações e, outras, através de ações.

25- VERSO 11

       vidyam ca avidyam ca yastadvedobhayam saha  /
       avidyaya mrtyum tirtva vidyaya´mrtamasnute   // 11 //

- VIDYAYA = (várias) meditações.
- AVIDYAYA = (vários) rituais.
- YA (yah) = (aquele) que.
- VEDO (veda) = conhece.
- OBHAYAM (ubhayam) = ambos.
- SAHA = os 2 juntos; simultaneamente.
Comentário: Aqueles que se ocupam (conhecem) deste vasto conhecimento (meditações e rituais que compõem a parte inicial dos vedas) que “não tem fim” pois são muitos.
Comentário: Cada um produz um resultado diferente, um é só ação física e o outro é ação física mais o lado mental.
- TIRTVA = atravessa; ultrapassa; vai além.
- MRTYUM = a morte (mortalidade, um longo tempo).
- ASHNUTE = alcança; adquiri; ganha.

26- VERSO 12

       andham tamah pravisanti ye'sambhutimupasate  /
       tato bhuya iva te tamo ya u sambhutyam ratah   // 12 //

- ANDHAM = cega (total).
- PRAVISHANTI = entram.
- SAMBHUTI  = aquilo que é manifesto (a criação).  A = negação.
- TE = você.
- TATO (tatah) = ai então.
- BHUYA = maior.
- IVA = ainda.
- TAMO (tamah) = escuridão.
- RATAH = se envolvem completamente.
Comentário: Aqueles que se envolvem completamente com a criação, alcançam então, uma escuridão ainda maior.

27- VERSO 13

    anyadevahuh sambhavadanyadahurasambhavat  /
    iti susruma dhiranam ye nastadvicacaksire   // 13 //

28- VERSO 14

    sambhutim ca vinasam ca yastadvedobhayam saha  /
    vinasena mrtyum tirtva sambhutya'mrtamasnute   // 14 //

- VINASHAM =  a destruição.
- YA (yah) = essa pessoa.
- TAT + VEDA + UBHAYAM = que conhece ambos.     
- SAHA = os 2 (o manifesto e o não-manifesto).
- MRTYUM = morte (punyapapam).

Parte 9
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

- YATHATATHYATAH = (aquele que) de acordo com (os fatos, situações que aconteceram, coisas que foram feitas no passado).
- VYADADHAC (vyadadhat) = determina.
- SAMAH = anos, séculos.
- CHASHVATI = por muitos e muitos.

Obs: Atma é aquele que determina todo o universo, tudo aquilo que vai acontecer (o resultado da ação). As pessoas fazem as ações e, destas, sempre vem um resultado. Existe uma relação de Causa/Efeito (Ação/Reação), todo o universo é “amarrado” através das Ações/Resultados das pessoas, este é o processo cíclico de toda criação. De acordo com todas as ações (os fatos, coisas que foram feitas no passado) essa criação toda acontece.
     Uma criação se manifesta de acordo com a anterior; todos os seres estão sempre fazendo a ação e colhendo resultado, de acordo com a ação das pessoas o resultado vem. Então, ciclicamente, todo esse universo vem.
     Os seres humanos têm uma característica especial, diferente, possuem um tanto de livre arbítrio. Podemos, através da nossa vida, nos modificar quanto indivíduo, modificar a própria vida, transformar esta pessoa, as buscas, os desejos, por causa desse tanto de livre arbítrio. Isto é o que distingue o ser humano de todos os outros seres na criação (inclusive dos devas). O que não se sabe é quanto livre arbítrio temos quando fazemos uma escolha. Dentro da nossa capacidade de ação não sabemos o quanto, mas sabemos que possuímos.
     Com o livre arbítrio, buscamos a libertação ou nos manter no samsara, mas de qualquer maneira, continuamos buscando, fazemos a ação deliberadamente.
     Para que os seres possam cumprir o próprio karma, a criação então se manifesta e entra no ciclo manifestação-dissociação-manifestação; sustentada por esse Atma que é Ishvara. Atma é a verdade de Ishvara que é a ordem que mantém toda essa criação. Atma produz todo o universo porque Ele é Ishvara que é aquele que, junto com maya, é a causa do universo.
 
23- VERSO 9

       andham tamah pravisanti ye´vidyamupasate  /            
       tato bhuya iva te tamo ya u vidyayam ratah   // 9 //

- UPASATE = aquele que faz upasana (meditação) , aquele que medita.
Comentário:  São usadas palavras diferentes para meditação:
     a) Dhyanam = simples meditação.
     b) Japa dhyanam = meditação com um mantra, repetição de um mesmo mantra.
     c) Upasana = visualização (ex.: visualizar Ganesh relacionando-o a sua forma e significado).
    d) Nididhyasana = contemplação (quando revemos um assunto. Ex.: “sou livre de limitação”, “sou a Consciência que não nasce e não morre”).
Comentário: Meditação é tudo feito mentalmente.
     Existem vários tipos de meditação, algumas a gente faz dentro da busca do autoconhecimento, com intuito de acalmar, organizar e purificar a mente; outras são chamadas de ação, ação mental, pois não vão levar a pessoa para o autoconhecimento e uma liberação em última instância.    
- AVIDYAM = (meditam na) ignorância.
Obs: AVIDYAMUPASATE = aquele que faz meditação (visualização) no (âmbito da) ignorância (ação).
- PRAVISHANTI = (estas pessoas) entram.
- YE (ya) = que.
- TAMAH = escuridão (ignorância).
- ANDHAM = cega (total).
Comentário: Ignorância = ausência de discriminação (aviveka), ausência de busca pela liberação.
Comentário: ANDHAM  TAMAH  PRAVISHANTI  YE'VIDYAMUPASATE = aqueles que fazem ações mentais (não voltadas apenas para o autoconhecimento) entram na escuridão total (cega).
- TATO (tatah) = ai então.
- BHUYA = maior (mais difícil de sair).
- IVA (eva) = ainda (realmente, certamente).
- TAMO (tamah) = escuridão.
- TE = eles (estas pessoas).
- YA = que.
- RATAH = (aqueles que) se entregam; estão satisfeitas; se envolvem completamente.
- U = de verdade; verdadeiramente; com certeza.
- VIDYA = meditações (ações mentais).
Comentário: Dentro da primeira parte dos Vedas se fala nessas vidya como sendo meditações numa forma divina (deva upasana) e, avidya como, somente, ação (rituais, karma).
Obs: Esta Upanishad quer nos mostrar a limitação das ações, dos rituais e meditações, que não apontem para o preparo da mente, a limitação das meditações para produzir resultados.
     A Upanishad diz: “Para que você vai ficar se mantendo nessa situação que não é um resultado definitivo? uma solução definitiva? Dirija-se para o resultado que é a liberação”.