19 de jun de 2013

Yoga em Voga entrevista Gustavo Schimming

YOGA EM VOGA ENTREVISTA – GUSTAVO SCHIMMING


YV – Fisioterapia e Educação Física são os cursos que você se graduou na Universidade e posteriormente você se dedicou ao estudo e a prática do Pilates para também o Yoga se fazer presente na sua vida. Como aconteceu essa transição no sentido de o Yoga, o Vedanta e o Sânscrito ocuparem um lugar importante e significativo em seu caminho? O que o levou a eles? Incentivo por parte de alguém ou foi uma escolha que se apresentou a você de uma forma natural?
                                                                                      
GUSTAVO – Desde a morte do meu pai em 2001 comecei a questionar o sentido da palavra "Deus", comecei a entrar em contato com o maior numero de informação possível que apresentasse os temas religião e espiritualidade. Somando a esta busca, meu grande interesse por atividades físicas levaram-me a prática do Yoga como mais uma forma de me exercitar. O maior objetivo com o Yoga, neste período, era deixar o corpo físico mais forte e resistente.
   Desde então comecei a morar fora do país ainda como uma forma, apesar de inconsciente, de compreender "Deus". Estava exercendo o livre arbítrio me deixando guiar pela liberdade de expressão que tomou conta da minha vida. Após alguns anos morando fora e continuamente lendo sobre espiritualidade, a visão que se estabeleceu sobre "Deus" naturalmente ampliou-se.
   Em um determinado ponto da minha vida, fui impedido de seguir morando fora. Neste momento parei para pensar no que faria a partir dali. Na época estava praticando Yoga intensamente, e em um desses dias, ainda resolvendo o que faria da vida, subitamente, após uma prática, me veio a ideia de ir para Índia. Perguntei na recepção do local onde praticava, se alguém poderia me indicar algum lugar para ir praticar Yoga na Índia. A recepcionista me apontou um professor e fui falar com ele. O professor me passou o link do local para onde ele estava indo. Chegando em casa entrei no link e imediatamente preenchi o formulário para fazer os cursos oferecidos no 'Ashram', e alguns dias depois já tinha comprado a passagem aérea.
   O que não tinha percebido, e não prestei a devida atenção naquele momento, foi que o "curso" que tinha me inscrito não era sobre 'Yogasana' (posturas físicas) como havia imaginado ao inscrever-me, eram "cursos" (camps) de Vedanta, mas só fui me dar conta já lá no 'Ashram', na Índia. Inicialmente não entendi do que se tratava, mas aos poucos, a partir do momento em que ia compreendendo, a sensação que dava era a de um reencontro, um enorme reencontro. Uma sensação de que tinha encontrado algo que nem sabia estar buscando, e que ao mesmo tempo já conhecia tanto, tomou conta de mim. Foi amor ao primeiro contato, tudo o que estava sendo falado era como se já viesse escutando há muito tempo. A apreciação, a admiração, o respeito, o valor, a identificação, que existia em mim em relação ao ensinamento transmitido, era maior do que qualquer outra coisa que tivesse entrado em contato até o momento.
   Tinha ido para Índia para ficar um período de 2 semanas e acabei ficando 3 meses. Estudei muito sobre Yoga, quer dizer, Vedanta. Ao final dos 'camps' de Vedanta e com a certeza de que tinha encontrado algo com o que trabalhar, aprender e ensinar, fiz a primeira formação em Yoga, Iyengar Yoga, onde, além de técnicas de 'asana', 'pranayama' e etc, tive o primeiro contato com o alfabeto 'devanagari', da língua sânscrito.
   Retornei ao Brasil em abril de 2007 e comecei a dar aulas no Rio de Janeiro. Continuei os estudos de Vedanta e sânscrito no Vidya Mandir. Em 2008 fiz mais uma formação, dessa vez, no Brasil mesmo.  
                                                     

 YV – Algumas pessoas confundem Pilates com Yoga e vice-versa. Até que ponto o Pilates pode ser um aliado daquelas pessoas que também se dedicam a pratica de ásanas do Yoga? Você acha que se alguém somente se dedicar ao Pilates e de modo algum praticar Yoga, mas paralelamente se esforçar para apurar o seu lado espiritual e até mesmo buscar conhecimento no estudo das escrituras e do Vedanta também pode colher os mesmos benefícios de quem está absolutamente mergulhado no Yoga? Será que o Pilates anda atraindo muitas pessoas que poderiam estar praticando ásanas do Yoga ou isso não condiz com a realidade dos fatos?

GUSTAVO – O Pilates foi desenvolvido por uma pessoa que era envolvida com a atividade física, esporte, artes marciais e circenses, dança, e que trabalhou como enfermeiro. Então, era alguém que conhecia muito a respeito do corpo e do movimento deste, e consequentemente, sobre consciência respiratória e sua correlação com o movimento do corpo.
   Assim como os 'yogasana', o Pilates é um método que desenvolve muita consciência corporal, a percepção das diferentes partes do corpo, suas funções e sensações. Trabalha ampliando a coordenação, equilíbrio, força, resistência muscular localizada, flexibilidade e etc (valências físicas). É uma opção excelente como prática complementar. O que pode ser feito, é aplicar a consciência corporal adquirida na prática do Pilates, na prática de 'yogasana', e aplicar a atitude de Yoga, na prática do Pilates.
   O Pilates, assim como qualquer outra atividade física, se for praticado como uma forma de aplicar, vivenciar o que foi aprendido no estudo do Vedanta, se for praticada com uma atitude de autoconhecimento, os frutos também serão colhidos.
   Para avaliar se uma prática atrai mais ou menos pessoas do que a outra, é necessário, primeiramente, definir realmente o que se entende por 'yogasana' e o que é o Pilates, para então avaliarmos se são comparáveis de fato. Se virmos as duas práticas apenas como atividades físicas, sim, elas irão compartilhar do mesmo público. 
                                                                                                               
YV – Você é do Rio de Janeiro e atualmente vive em Florianópolis/SC e nas horas de lazer se dedica ao Surf. Muitos praticantes de Yoga e até mesmo alguns professores adoram surfar. Todo surfista é um yogi em potencial ou essa premissa não condiz com a realidade dos fatos? De que maneira a prática de ásanas pode contribuir para ajudar na performance daquele que surfa? O ato de surfar pode ser considerado uma meditação em movimento? Como você vê a moda de se praticar ásanas sobre a prancha SUP?

GUSTAVO – De algum ponto de vista, todos os surfistas, todas as pessoas são 'yogis' em potencial. Se, por exemplo, o surfista age com não-violência dentro do mar, em uma determinada situação, naquele instante, ele foi um 'yogi'.
   A prática de 'yogasana', como dito anteriormente, também pode desenvolver as valências físicas e a consciência corporal. E como o surfista, assim como qualquer praticante de outra modalidade esportiva, precisa deste desenvolvimento para melhorar seu desempenho, podemos dizer que quanto mais prática, melhor será a performance.
   Se a palavra 'meditação' for vista como um momento de plenitude, podemos dizer que surfar torna-se uma meditação a partir do momento em que surfista (Consciência testemunha), onda (objeto de percepção) e a identidade entre eles (conhecimento) tornam-se um só. O momento que mais representa esta "meditação" é quando o surfista está dentro da onda, em uma manobra chamada de 'tubo'.
   Yoga é uma atitude que temos enquanto agimos, uma atitude presente quando fazemos nossas ações, então pode ser praticado em qualquer lugar, em qualquer época, a qualquer momento. Existe toda uma tradição e todo um ensinamento que deve ser respeitado. Praticar 'yogasana' envolve todo um ritual, admiração, postura, atitude e respeito, no qual o objetivo é libertar-se, conhecer-se. O foco é o 'Eu', 'Quem sou eu?', 'O que quero realmente conquistar nessa vida?'.

YV – De toda a sua bagagem cultural, que engloba estudos, especializações, experiências, vivências e práticas aqui e no exterior, você percorre o Brasil e já percorreu alguns países ministrando workshops sobre temas muitos úteis àqueles que se interessam pelo estudo e a prática do Yoga. Dentre os cursos/workshops que você nos brinda estão: “Anatomia e Cinesiologia aplicadas ao Hatha Yoga” e “AHIMSA (não-violencia) – Uma abordagem Anatômica e Biomecânica do Hatha-Yoga”. Por que você escolheu esses temas para serem compartilhados com as pessoas que se interessam pelo Yoga além do tapetinho? Qual é a melhor maneira de o praticante desenvolver a consciência e a percepção corporal no sentido de evitar lesões durante a prática de ásanas? Para os leigos, por favor, defina o que é Cinesiologia, Biomecânica e Propriocepção.  Já o convidaram para gravar um DVD sobre seus workshops?                              
                                                            


GUSTAVO – Desde sempre estou envolvido com as atividades físicas em geral, isto me deu a bagagem prática do movimento corporal, da respiração, da inter-relação entre elas, e da inter-relação movimento, respiração e emoção/sentimentos. Este grande envolvimento trouxe lesões, seus tratamentos e suas prevenções que, mais adiante, colaboraram muito para que eu compreendesse a parte teórica, durante minha formação e especialização, quando me foi apresentada.
   Ao entrar em contato com o Yoga/Vedanta, tive a oportunidade de me conhecer mais, e com isso reconhecer certos padrões de pensamento, de movimento, de comportamento, e que muitas vezes foram a causa de minhas lesões. O Yoga me trouxe outro ponto de vista, outra forma de ver a vida, de me relacionar com ela, uma forma menos "violenta", mais consciente, mais objetiva.
   Então, escolhi os temas que mais tenho conhecimento teórico-prático para que, por meio destes, possa fazer com que haja a compreensão do que vem a ser o Yoga. Para que, através do físico, possa se compreender o sutil. É a melhor ferramenta que me foi dada para transmissão do conhecimento.
   A melhor maneira de evitar lesões é, primeiro, saber o que de fato significa Yoga, segundo, estudar a teoria sobre o corpo humano (livros, cursos, etc) e, terceiro, aplicar a teoria na prática.
   Cinesiologia é o estudo do movimento. Desenvolveu-se a partir da fascinação dos seres humanos pelo movimento animal. Combina teorias e princípios de anatomia, fisiologia, física, mecânica, matemática, psicologia e antropologia.
   Biomecânica é a aplicação da mecânica, ciência que estuda o movimento e o repouso dos corpos, no corpo humano vivo.
   Propriocepção é como se fosse um sexto sentido, é determinada por receptores de movimento, responsáveis por respostas locomotoras e posturais. Dão a localização do corpo no espaço e preparam o corpo de acordo com a demanda de movimento específico.
   Em 2010, na Índia e em Portugal, quando ministrei os cursos, me perguntaram se gostaria de gravar o workshop, mas não o fiz.

YV Você acha que aqui no Brasil há uma carência de professores comprometidos e especializados em Anatomia voltada ao Yoga? Ou esse assunto ainda não merece a devida atenção em algumas Formações para Professores de Yoga que nos deparamos por aí? 

GUSTAVO – Existe uma carência de professores com embasamento, que possam realmente direcionar uma prática com um mínimo de segurança para evitar lesões. Uma importante questão é como avaliar e quem são aqueles que poderiam julgar o quão apto e preparado estariam os instrutores.
   É importante também que nós estejamos conscientes da responsabilidade, das consequências que uma prática de 'yogasanas', pode trazer para o corpo de um indivíduo. Quanto mais conhecimento, neste caso, anatômico, um instrutor adquirir, mais ciente estará da responsabilidade que acompanha o papel de professor.
   A anatomia, assim como a fisiologia humana e a cinesiologia, são disciplinas que merecem tanta atenção quanto quaisquer outras associadas ao Yoga.
   Penso que existe outra carência em paralelo, e que, se resolvida, poderia suprir um pouco a falta de embasamento anatômico. É a falta de compreensão a respeito do que é Yoga, do que significa 'ahimsa'. 
                                  

YV – Em 2012, o The New York Times, publicou um artigo escrito por William J. Broad, cujo assunto também foi abordado em seu livro The Science of Yoga, onde ele sustenta que a prática do Yoga danifica o corpo do praticante e que em alguns casos pode até causar a morte. Essas alegações abalaram a Comunidade do Yoga.  Na sua opinião, você acha que Broad exagerou? Ou ele tem, de certa forma, um pouco de razão?

GUSTAVO – Este artigo deveria ser lido por todos aqueles que, de uma forma ou outra, tem alguma ligação com o Yoga.
   Dizer que a prática do Yoga danifica o corpo não é um fato, sabendo que Yoga é uma atitude por trás das nossas ações, uma atitude ética e moral que rege nossas ações. Esta atitude envolve o princípio da não-violência que, abrangendo o cuidado com o corpo físico, deveria estar presente.
   A falta de cuidado, desconsiderando minhas limitações físicas prévias e possíveis lesões decorrentes de uma prática de negligência, isto sim, deve ter uma atenção especial.
   Não é o Yoga que danifica o corpo, e sim, a atitude com a qual este é praticado.


YV – Além de ser professor de Yoga e fisioterapeuta, você exerce a profissão de professor de Educação Física voltado a Programas Sociais em conjunto com a Prefeitura de Lajes/SC. De que forma esta ação tem influenciado de forma positiva e produtiva na vida dos alunos que tem o privilégio de tê-lo como professor? Há uma pitada de Yoga nas aulas?

GUSTAVO – O concurso que prestei em Lajes/SC foi feito em uma época que tinha decidido morar em Urubici/SC. O resultado positivo saiu em paralelo com a decisão de voltar a morar em Florianópolis/SC. Então, não cheguei a assumir o cargo.
   Todo e qualquer trabalho que realizo tem uma pitada de Yoga.

YV – Tanto o praticante que é idoso quanto a criança, além dos que tem alguma limitação na saúde, merecem atenção redobrada durante uma prática de Yoga; no entanto, alguns professores não dispensam a devida atenção. No seu ponto de vista, quais os cuidados essenciais que um professor de Yoga deve aplicar para que esses praticantes possam desfrutar do momento da prática sem que seus corpos sejam exigidos em demasiado?

GUSTAVO – Entendendo uma prática de Yoga como uma prática de 'Yogasana', o cuidado essencial é a aplicação de 'ahimsa', a não violência.
   No caso dos idosos é importante fazer o aprofundamento teórico das consequências do tempo sobre o corpo humano. O corpo de um idoso é, em geral, naturalmente mais frágil, então, a prática deve ser direcionada para manutenção da qualidade de vida e sempre dentro da limitação física de cada indivíduo.
   Para as crianças devemos manter o foco no desenvolvimento de valores éticos e morais. Sobre a parte de 'Yogasanas', demonstrar as posturas sem exigir que devam ser feitas como fazemos. Deixá-las livres para se expressar e sempre que virmos que existe algum exagero, alguma ação que possa acarretar lesões ou desvios posturais futuros, orientá-las a fazer diferente.

YV – Gloria Arieira, Swami Dayananda Saraswati são os professores que você escolheu para aprimorar o conhecimento de Vedanta e Sânscrito. Como você vê a sua evolução como estudante? O que mudou na sua vida a partir do momento que o conhecimento Védico começou a aflorar em você? Quais as escrituras ou texto de Vedanta que o inspiram, por considerá-los importante, e que não podem ser deixados de fora do estudo daquele que se inicia?
                                                                                                              

GUSTAVO – A evolução de um estudante está diretamente ligada ao tempo despendido e ao compromisso com o conhecimento estudado.
   Assumi um compromisso com o conhecimento Védico no sentido de me manter sempre o estudando, o transmitindo, e em contato com o guru.
   O conhecimento Védico tem um valor incomensurável na minha vida pessoal, foi um divisor de águas. A atitude com a qual faço as ações, o ponto de vista do qual enxergo a vida, a maneira como interpreto as situações que se apresentam, como me relaciono, como tomo as decisões, como faço as escolhas, como ensino, como faço uso do livre arbítrio, tudo mudou, ampliou.
   Este conhecimento me apresentou o valor dos valores.
   Todas as escrituras de Vedanta e textos relacionados carregam a mesma mensagem abordada de maneiras diferentes. O Vedanta é inspirador, realizador e, principalmente, libertador.
   Não existem textos a serem deixados de fora, pois todos transmitem em essência a mesma verdade. A coluna central deste conhecimento se encontra nas Upanishads, e os textos mais indicados para iniciar seu estudo são Tattvabodha, Atmabodha  e Bhagavad Gita.
   'Ekam sadvipra bahudha vadanti' (Rig Veda)
   A Verdade é Uma; os sábios A chamam de diferentes maneiras.

YV – Com qual ou quais Deuses Hindus você sente que tem uma afinidade especial? Já aconteceu alguma situação em relação a um Deus ou Deusa do Hinduismo que lhe trouxe uma resposta significativa?

GUSTAVO – Os Deuses Hindus, cada um deles, carrega uma série de significados.  
   A deidade Ganesh pode representar a capacidade de transpor obstáculos, nos remete a nossa própria capacidade de transpor obstáculos na vida; Shiva representa o poder de destruição, o poder que temos de destruir tudo que leve ao desvio do objetivo traçado.
   A afinidade por Ganesh e Shiva é mais presente neste momento de vida, pois trazem a ideia da manutenção do caminho independente dos obstáculos que se apresentam, e o constante foco que destrói qualquer pensamento que desvie do caminho escolhido.
   Ao mantrar para Ganesh e/ou Shiva entro mais uma vez em contato com o compromisso que assumi. É um momento onde renovo o voto, o voto de viver consciente.    

YV – Como você vê a prática do Yoga no Brasil? Será que existem poucos praticantes para muitos professores? Ou o brasileiro, na sua grande maioria, ainda não despertou o devido e o real interesse pelo Yoga? E, qual é a boa dica de Gustavo Schimming para que o caminho do Yoga seja percorrido sem que haja vontade de se retornar à estaca zero?

GUSTAVO – Em geral, não só no Brasil como também fora dele onde tive a oportunidade de praticar e ensinar, o Yoga é apresentado como ginástica ou uma forma de relaxar e apaziguar a mente. O "boom" do Yoga em nosso país está relacionado a este ponto de vista. A maioria daqueles que tiveram contato com o Yoga conhece apenas esta visão.    
   Vejo que aumentou o numero de professores que conhecem o Yoga de fato, aquele apresentado pelas escrituras, pelas Upanishad, pela Bhagavad Gita, pelo Yoga Sutras de Patanjali. E com isso aumenta consequentemente o numero de praticantes conscientes do Yoga.
   Existe uma ordem maior que rege o todo. O despertar e o interesse vêm no seu devido tempo, para tudo na vida.

   A dica é manter o conhecimento presente o máximo de tempo possível ao agirmos, fazer com que a atitude de Yoga abranja todas as áreas da nossa vida. Om.
                                                                                                    

MINI BIOGRAFIA

   - Graduado em Fisioterapia e Educação Física, com especialização em Yoga e Pilates.
   - Ministra cursos/workshops sobre Anatomia, Fisiologia Humana, Cinesiologia, Biomecânica e Meditação, no Brasil e exterior.
   - Coordena a parte de Anatomia, Fisiologia Humana, Cinesiologia e Biomecânica em cursos de formação para professores de Yoga em Florianópolis-SC e Joinville-SC.
   - Ministra aulas de Yoga no Centro do Ser, aulas de Pilates no Lagoa Iate Clube, aulas particulares de Treinamento Funcional, Surf e Stand Up Paddle (SUP); em Florianópolis-SC.

   - Criador do blog REXPIRE. http://www.rexpire.blogspot.com.br/

5 de mar de 2013


A Essência do trabalho


   Muitas perguntas andam sendo feitas a mim relativas ao trabalho que faço. A mais recorrente é se existe algum livro ou livros nos quais a essência do trabalho que venho desenvolvendo estivesse presente, para que se possa ampliar sua compreensão. Se existe um livro que melhor representa e onde sua semente se encontra, este é "O Valor dos Valores" baseado em palestras dadas pelo mestre Swami Dayananda Saraswati, traduzido para o português com a coordenação da professora Glória Arieira. O tema central do ensinamento é o conhecimento de si próprio e a descoberta da felicidade que já somos. Para a aquisição deste conhecimento e para a descoberta desta felicidade, o valor pelos valores universais e seu cultivo em nossa vida, é fundamental.
 
   Abaixo temos um primeiro contato com esta biografia.                           

   No início do livro surge uma pergunta: "Qual o valor que um valor possui para mim mesmo?". É dito por Swami Dayananda que um valor só é um valor se ele é de valor para mim. Então, desde o início, existe um convite para reflexão a respeito dos valores.

   São abordados 5 versos do capítulo 13 da Bhagavad Gita. Nestes 5 versos, o mestre (Krshna) fala ao discípulo (Arjuna) sobre os 20 valores essenciais para preparar a mente do buscador para conhecer a si mesmo. Valores estes, que devem dirigir nossos pensamentos e ações.

   Estes valores são: Ausência de vaidade (1), de pretensão (2), de egoísmo (3), de posse (4), de apego ao filho, mulher e lar (5), não-violência (6), adaptabilidade (7), retidão (8), limpeza (9), persistência (10), dedicação ao mestre (11), comando sobre a mente (12), desapego aos objetos sensoriais (13), reflexão sobre a limitação do nascimento, morte, velhice, doença e dor (14), constante neutralidade diante do desejado e do indesejado (15), firme devoção com a visão de não-separação, (16), recolhimento a lugar tranquilo (17), necessidade da companhia das pessoas (18), clareza do objetivo do conhecimento (19), e constante vivência do autoconhecimento (20).

   A Bhagavad Gita denomina este conjunto de valores como 'Jnanam', que significa conhecimento. 'Jnanam' representa, aqui, as diversas qualidades da mente, na presença das quais, em medida relativa, o conhecimento de si pode ocorrer.

   Então, o 'Jnanam' dos 20 valores, conduz e prepara a mente para a conquista do autoconhecimento. Os valores conduzem ao autoconhecimento, pois sua exata compreensão e aplicação na vida diária são capazes de tranquilizar a mente proporcionando um campo propício para a realização do mesmo.

   Ao mesmo tempo, uma mente que possui os valores apropriados não é garantia de que o conhecimento de si ocorrerá, e sim, que poderá ocorrer. Daí vem sua medida relativa. Entretanto, uma coisa é certa, sem os valores apropriados não ocorrerá.

   O objetivo do livro é mostrar quão valiosos são os valores, primeiramente reconhecendo-os e depois colocando-os em prática em nossa vida. Além disso, o livro ajuda na compreensão da vida, na resolução dos conflitos e na obtenção de maior paz e felicidade. É dito que os conflitos nascem na nossa mente porque não assimilamos os valores morais, éticos e espirituais.

   Este livro também oferece uma visão do funcionamento da mente humana (1), a base lógica para a necessidade dos valores (2), e a maneira para praticá-los.

   Os valores então são essenciais. Uma mente preparada é aquela que os descobriu e os assimilou. A mente é o lugar onde o conhecimento acontece. A preparação da mente é necessária.

   O trabalho que venho desenvolvendo tem como base os valores, principalmente a não-violência (AHIMSA).



25 de mai de 2012


Meditação
(Parte 2)

O Efeito do Karma Yoga

     Com a atitude de Karma Yoga é possível aprender através das nossas experiências. Uma mente reativa não tem capacidade de aprender, pois não consegue ver as coisas objetivamente. A experiência é o melhor professor se a assimilamos sem reagir; mas na maior parte do tempo não aprendemos nada com elas e acabamos por nos arrepender.
     O aprendizado acontece nos momentos em que a nossa mente não está reativa, por mais raros que estes momentos sejam. Não há como aprender quando sua mente está identificada com a raiva ou qualquer sentimento parecido. Este estado mental não é receptivo. Por causa destas reações, nos tornamos incapacitados de aprender pelas nossas experiências.
     Se um resultado não está de acordo com nossas expectativas, o aceite, ou mude sua trajetória, e aja novamente. Se nossa ação falhar, não somos uma falha se aprendemos a partir desta experiência. Iremos desenvolver assim uma mente não reativa, capaz de aprender.

Os Valores Éticos = Qualidades da Mente = Jnanam

     O Gita denomina um conjunto de valores como jnanam, que significa conhecimento, e representa as diversas qualidades da mente na presença da quais, em medida relativa, o conhecimento do Ser pode ocorrer (o conhecimento do Ser é tanto o meio quanto o fim do ensinamento de vedanta). E quando a ausência dessas qualidades é significativa, o autoconhecimento não ocorre. Jnanam prepara a mente para vedanta.
     Karma Yoga ajuda a ganhar o preparo mental que capacita você a adquirir o conhecimento que é a libertação (moksha).
     Jnanam são os valores necessários para preparar a mente para o conhecimento. Os valores são um estado da mente que reflete certos valores universais e atitudes éticas. A descoberta e a assimilação dos valores por si só constituem a preparação da mente, tudo o mais é secundário. O jnanam (conhecimento) dos valores é a preparação para a conquista do autoconhecimento. Isso não quer dizer que o conhecimento do Ser ocorrerá se a mente tiver os valores apropriados, mas que poderá ocorrer. Sem os valores apropriados não ocorrerá.
Resumindo:

- valores apropriados presentes: o autoconhecimento pode ou não estar presente.
- valores apropriados presentes: o autoconhecimento pode ser obtido.
- valores apropriados ausentes:  o autoconhecimento não pode ser obtido.

     Um valor é a consideração por alguma coisa, ou uma atitude apreciada ou estimada pelo dono do valor. Em sânscrito, um valor ético pode ser definido como Dharma, que é um padrão ou norma de conduta originado na maneira pela qual eu desejo que os outros me vejam ou me tratem. O que espero ou desejo dos outros se torna meu padrão de Dharma (comportamento adequado). Não posso “fugir” dos valores porque ninguém, vivendo neste mundo, pode fugir dos relacionamentos, e com os relacionamentos vêm os valores. Se desejar que a outra pessoa se comporte de certa maneira, então estou preso a um sistema de valores.
     Karma Yoga é cuidar e observar meus gostos e aversões, isto pode apenas ser feito e trabalhado através de nossa interação com o mundo externo.
     Ninguém quer a mente em conflito. Na presença de conflito, problemas com a mente são inevitáveis: autocondenação, ansiedade, arrependimento, culpa, sentimento de fracasso. Os conflitos aparecem quando sou incapaz de viver de acordo com um determinado valor que, consciente ou inconscientemente, aceito. Quando não posso viver de acordo com minha estrutura de valores, fico em conflito e sofro de culpa.
     Valores: não violência, constante vivência do autoconhecimento, apreciação do objetivo do conhecimento da verdade, firme devoção com a visão não dual, reflexão sobre a limitação do nascimento, morte, velhice, doença e dor, adaptabilidade, etc. Valores que devem estar presentes para que a mente do buscador esteja preparada para o conhecimento do Ser.
     Valores éticos: universais no conteúdo e relativos na aplicação.

Karma Yogi
     O Karma Yogi também tem gostos e aversões, mas os abandona, significando que ele não é guiado por eles. Ao invés de ir por “devo fazer isto” e “não devo fazer aquilo”, ele vai pelo que deve ser feito, de acordo com Dharma e Adharma. Neste caminho, os gostos e aversões da pessoa são abandonados até certo ponto e aqueles que permanecem são buscados de acordo com o Dharma.
     Ao satisfazer qualquer desejo, existe uma escolha envolvida. As escolhas são determinadas pelos gostos e aversões de alguém. Se algo tem que ser feito, o Karma Yogi faz independente se ele gosta ou não. Agindo assim ele renuncia a determinados gostos e aversões.

Dhyana
     Capacidade da mente de ficar com ela mesma ou com o objeto de meditação.   
     É para estabilidade mental.
     Na meditação, ato de meditar, somente a mente está envolvido. É uma ação nascida puramente da mente. Pode ser rezar, contemplar ou qualquer outra disciplina interior; é puramente interior.
     Para obter firmeza (constância, regularidade) mental e a calma (serenidade, tranqüilidade) necessária para adquirir autoconhecimento existe a disciplina interna da meditação.
     Exercer o estado de ausência de distrações.


Preparação para Meditação
     Qualquer coisa que entre em contato com os órgãos dos sentidos é chamada de objeto. Os órgãos dos sentidos são expostos aos objetos dos sentidos significando o mundo. 


Órgãos dos sentidos            Objetos dos sentidos

Olhos                                   cores e formas
Ouvidos                               sons
Nariz                                   cheiros, odores
Língua                                 gostos, sabores
Pele                                      texturas


Como Manter os Objetos Externamente
     Todos os objetos (pensamentos) entram na mente através dos sentidos. Na meditação, todos os objetos externos devem ser mantidos externamente. Você simplesmente deixa de pensar neles. Você direciona sua mente para alguma outra coisa. Não tem que rejeitar, reprimir ou mandar embora os objetos, apenas deve-se deixar eles exatamente onde estão.
     Os objetos, primeiramente, entram na sua mente por você pensar neles. Entretanto, você não pode culpá-los por estarem em sua cabeça. Não pense sobre eles e eles não estarão lá.
     Os objetos já estão externos e, não dando importância para eles, irão manter-se externos. Assim se mantém os objetos externamente.
     Os olhos são mantidos fechados. Manter os olhos fechados facilita o pensar num objeto de meditação. Fecham-se os olhos para eliminar distrações.


Observando a Respiração
     Manter um ritmo entre inspiração e exalação. Ficando consciente do processo da respiração, observando-a, ela se torna calma. Ligado a isso vem o relaxamento do corpo e o aquietamento da mente.

Livre do Medo 
     A pessoa se vê livre de desejos, medo e raiva. A pessoa fica emocionalmente madura no sentido de não estar mais sobre o feitiço do desejo, medo ou raiva. Tal pessoa é naturalmente sempre livre, por causa do autoconhecimento. Conforme o processo de autoconhecimento acontece, a identificação com os pensamentos (sentimentos) vai diminuindo.
     Meditação é uma prática (sadhana), um meio para adquirir a libertação.

Toda Ação Nasce na Mente 
     Na verdade, toda ação nasce na mente, mas não necessariamente permanece nela. Apesar de todas as formas de ação emanar da mente somente, elas nem sempre param nela (ex.: ação de falar). Mas em Dhyana, a atividade nasce na mente e permanece nela, então é puramente uma ação mental. Uma atividade que é uma prática, um meio, yoga.
     Toda preocupação é também uma atividade mental. Uma pessoa preocupada constantemente não pode dizer que está meditando.
     Dhyana é uma ação mental onde o assunto é pré-determinado, o tema é o ilimitado Brahman. È uma atividade mental onde todos os pensamentos que não se referem ao objeto escolhido são removidos, e onde apenas aqueles que se referem ao objeto escolhido fluem por um período de tempo.

Uma Mente “Viajante” Faz Parte da Meditação 
     Quando a mente “viaja” fora do objeto da meditação, deve ser trazida de volta para o objeto meditado. Este dispersar faz parte da meditação. Quando a mente perder o foco, simplesmente traga-a de volta. Se a mente não perder o foco em nenhum momento, isso é chamado samadhi (estar muito próximo do objeto a ponto me ver como o próprio objeto).

Meditação não Envolve Apenas Vontade/Disposição 
     Meditação é algo que alguém pode fazer se sentir vontade, mas apenas será efetiva se a mente estiver preparada. Uma disposição para meditação não é criada pela vontade, mas você pode ir sentar e tentar meditar. Tal disposição ocorre quando você está pronto para isso e esse preparo é o que chamam de prontidão mental. Adquirir esta prontidão não ocorre com o tempo, mas é criada por viver uma vida de Karma Yoga.

Obstáculos 
     Doença, inércia, dúvida, negligência, preguiça, equivocação na tomada de decisões, inconstância, instabilidade.

Receita para o Sucesso na Prática 
     Dedicação, desapego, esforço, confiança, atenção, energia, sabedoria.



Meditação
(Parte 1)
          Existem 2 tipos de sadhana (prática), ambos devem ser seguidos:

- Karma Yoga (meio externo para moksha)
- Dhyana         (meio interno para moksha)

Karma Yoga    
     É o que deve ser feito por você, com uma atitude adequada e seguindo valores.
     É o entendimento de que temos o controle somente na ação, nunca sobre os resultados.
     Uma atitude em relação à ação. Atitude que nos desidentifica de gostos e aversões.
     Cuidar e observar meus gostos e aversões.
     Purificação mental.
     Estabilidade da mente.
     Sabedoria na ação. Dissociação de nossa relação com o sofrimento.       


Toda Ação Nasce de um Desejo
     Desejos são divididos em 2 categorias: gostos, algo que você quer proteger ou adquirir e  aversões, algo que você está tentando evitar ou até mesmo se livrar. São divididos também em outras 2 categorias: “úteis”, desejo de fazer, ensinar, doar, escrever, estar atento, consciente e aqueles que desestabilizam a nossa mente, desejos capazes de tirar o foco da nossa prática, da nossa vida, a paixão por alguém, um objeto; ou desejo por algo que não pode ser alcançado neste determinado momento de nossa vida, desejo que tira a nossa objetividade. Como indivíduos, estamos sujeitos a isso. Nossas experiências e julgamentos irão ditar nossas escolhas, nossos gostos e aversões. Nossas escolhas representam a dualidade, que representa a limitação.
     No Bhagavad-Gita, o mestre diz para o discípulo que primeiro tendo sob seu controle os sentidos, que abandone este desejo (aquele que tira a atenção da sua mente) pernicioso que destrói o conhecimento (III; 41). Fala também que os sentidos são superiores. A mente é superior aos sentidos. Superior à mente é o intelecto. Aquele (o Ser) é superior ao intelecto (III; 42). Os sentidos são superiores aos objetos que dependem da nossa capacidade de percepção. Sem os órgãos de percepção, os objetos não poderiam ser observados. A mente é superior aos sentidos, pois guarda a sensação dos objetos. Mas a mente tem a capacidade de fantasiar. Sem o conhecimento do Ser ela começa a achar que é o Eu. A mente é uma ferramenta que tem a capacidade de te conduzir ao Ser, mas ela deve ser disciplinada (yoga). Mas se ela estiver sob o comando dos desejos, você se perde em si mesmo. O intelecto é superior à mente, pois é o intelecto o responsável pela nossa capacidade de pensar objetivamente. E o Ser superior a tudo, mas se faz necessário um espaço onde possa se refletir claramente. O mestre conta que, desta forma, conhecendo aquele superior ao intelecto, segurando a mente com a mente, abondone o inimigo na forma de desejo que é difícil de ser vencido (III; 43).

     O mestre (sábio) compreende que ele é felicidade, e então se vê livre do desejo de se tornar feliz acumulando objetos; a sua felicidade não depende da presença ou ausência das coisas.

O Problema dos Gostos e Aversões
     Problemas são causados somente por uma mente dominada por gostos e aversões.
     Todos vivemos em um mundo pessoal condicionado pela sociedade, cultura, religião, pais e professores. Como resultado dessas influências cada pessoa tem seus gostos e aversões. Gostamos de objetos e sentimos que eles nos farão felizes. Desgostamos de outros e achamos que na presença deles nos tornamos infelizes. Há também objetos e pessoas aos quais somos indiferentes porque a presença destes não nos causa felicidade ou infelicidade. Não vemos os objetos do mundo como eles são, mas como eles são interpretados pela mente que tem gostos e aversões peculiares. Quanto mais sensível uma pessoa se torna, mais sutis se tornam os gostos e aversões. Ter preferências não é um problema em si, mas se alguém não gosta de certa nuance, não a verá como realmente é. Por isso se afirma que uma pessoa não vive em um “mundo público” (o mundo objetivo), mas em seu mundo privado, de fantasias. Tudo aquilo que buscamos é guiado por gostos e aversões. Pensamos que seremos mais felizes, confortáveis, adquirindo objetos que gostamos e nos livrando daqueles que não gostamos. Uma pessoa pode se sentir desconfortável por inúmeras coisas. O desejo de ser feliz nos condiciona a adquirir ou rejeitar de acordo com os gostos e aversões. Então, a felicidade se torna incerta porque depende do sucesso da busca; e ainda se torna mais incerta pelo fato de que os gostos e aversões mudam constantemente. Até que gostos e aversões sejam neutralizados, não podemos ser objetivos em relação ao mundo. Mesmo quando agimos conduzidos por gosto ou aversão, se não reagimos ao resultado, estes serão neutralizados. Agir sem depender do resultado ou dos vários fins da ação. O resultado de uma ação raramente está de acordo com aquilo que esperamos. Se é melhor do que esperamos, nos sentimos bem sucedidos; se recebemos menos do que esperamos, pensamos que somos fracassados. Mas se tomarmos os resultados objetivamente, nosso gosto ou aversão não poderá criar nenhum sentimento de sucesso ou fracasso. Não serão mais capazes de causar qualquer tipo de tristeza.
     Karma Yoga é para purificação mental, por liberar a pessoa de seus gostos e aversões.

Gostos e Aversões: Obstáculos para o Conhecimento 
     Uma pessoa com gostos e aversões pode ouvir o que está sendo dito pelo professor: “Você é ilimitado”, porque a mente está atenta e então está relativamente livre; a mente te deixa aprender a partir do momento que gostos e aversões não interferem. Estes momentos de aprendizado onde temos um lampejo de nossa realidade estão isolados da nossa personalidade. Mais tarde, quando estamos longe do professor e do ensinamento, estes lampejos desaparecem e tudo o que resta é a personalidade novamente governada pelos gostos e aversões.
     Agindo com uma mudança em nossa atitude neutralizamos gostos e aversões, e assim, obtemos uma mente relativamente livre com a qual possamos aprender.
     Uma atitude contemplativa é algo natural, mas somente pode ser descoberta depois de estarmos livres de gostos e aversões.
     O mundo objetivo não cria problemas para nós. Problemas são causados somente por uma mente dominada por gostos e aversões. Se você tem uma mente contemplativa, percebe que os gostos e aversões pertencem à mente, e que você não é a mente. Cultivar uma determinada atitude em relação à ação e seus resultados neutraliza os gostos e aversões, essa atitude é Karma Yoga.

Prática de Meditação
     Imaginem estarem próximas a uma montanha, uma floresta, com um rio silencioso, flores por todos os lados, pássaros cantando. O mundo é belo; você parece não desejar mais nada; você acertou suas contas com a vida e se sente bem feliz. É a mesma pessoa que respondia à simples pergunta: “Como vai você?” com um milhão de reclamações. Como estas reclamações desapareceram? Quando você viu a montanha, você não quis que ela fosse diferente; ou você gostaria que ela tivesse picos congelados? A mente aceitou tudo como está. Ela não desejou que o rio fosse mais rápido ou devagar, ou que o céu fosse mais azul, ou que os pássaros estivessem mais afinados. Você mesmo não quer ser diferente. Você sentiu a vontade de falar com alguém? Neste momento você está alegre e em paz. Este é o estado mental que nos conduz à contemplação.

Uma Atitude em Relação a Ação
     Podemos escolher como agir, mas o resultado não está em nossas mãos. O resultado é determinado pelo momento em que a ação é realizada. Não podemos evitar o resultado, estes são governados por leis que estão além do nosso controle. Encontramos-nos em um mundo governado por leis que não foram criadas por ninguém daqui. Nascemos de acordo com leis e a colheita dos resultados também está de acordo com estas leis. Esta é a lei natural, a qual podemos tentar “entender, mas nunca mudar”.
     Quando agimos, esperamos um resultado, mesmo que saibamos que estes não estão sob nosso controle. Possuímos gostos e aversões, e queremos que as coisas aconteçam de acordo com estas identificações. Gostos e aversões são identificações. Esta expectativa por um resultado é natural, não é o problema em si; o problema está na reação ao resultado. “Aja esperando um resultado; aja para que você consiga o que você quer; planeje e execute tua ação; mas se o resultado for completamente diferente das suas expectativas, apesar de tanto você o desejar, não reaja e não se sinta frustrado”.
     Então, não temos que abrir mão de nossas ações. Se apenas transformarmos a nossa atitude perante ás ações, nos tornaremos pessoas diferentes.
     Uma ação prende e continuará a prender uma pessoa somente se a atitude não for correta. A ação (respirar, comer, urinar, etc) nunca poderá ser deixada completamente. A nossa permanência no corpo físico não pode ser cumprida sem ação.


24 de mai de 2012


Parte 11
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

29- VERSO 15

       hiranmayena patrena satyasyapihitam mukham  /
       tattvam pusannapavrna satyadharmaya drstaye   // 15 //
 
- HIRANMAYENA = dourado.
- PATRENA = pote (patra). “Pote” que encobre a minha visão.
- MUKHAM = face (ou porta).
- SATYASYA = da verdade (verdade de Brahman).                                   
- PUSHAN = o protetor (o sol).
- TVAM = você.
- APAVRNA = abra (então).
- SATYADHARMA = aquele que cumpriu com toda a sua obrigação, fez o que tinha de ser feito.
- DRSHTAYE = para a visão.
Comentário: Essas pessoas que fizeram essas meditações e contemplações, têm em mente (estão visualizando), a morte. Quando eu morrer é que alguma coisa de bom vai acontecer. Não estão preocupadas com essa vida aqui, estão preocupadas com o que vai acontecer depois que morrerem. Estas pessoas meditam, rezam, fazem orações, para que, no momento em que morrer, a porta se abra (para felicidade, para o imortal). Estão envolvidas em vários rituais para que, depois dessa vida, possam ser levadas por um caminho de luz que as permitam ver a verdade.
     Que o sol possa abrir a porta da escuridão permitindo que entre luz, permitindo que a pessoa possa ver a verdade, depois que morrer.
Obs: Estas pessoas vão para estes mundos e buscam proteção nas várias deidades.

30- VERSO 16

       pusannekarse yama surya prajapatya vyuha rasmin samuha tejah  /
       yatte rupam kalyanatamam tatte pasyami yo'savasau purusah so'hamasmi   // 16 //

- PUSHAN=(aquele que) alimenta e protege todas as pessoas (Ó sol), viajante solitário.
- EKARSHE (ekarshi) = (Ó você que) vai para todas as partes.
- YAMA = grande controlador do mundo, do universo (controla ação e resultado), controlador do karma, controlador da morte (pois quando nosso karma acaba ele diz: “está na hora de você ir embora”).
Comentário: YAM = também significa “controlar”. Yamas e niyamas  controles, disciplinas.
- PRAJAPATYA (prajapati) = criador.
- RASHMIN = raios.
- KALYANATAMAM = (aquele que é) o mais belo.
- RUPAM = forma (mais bela).
Comentário: Ó sol, criador, controlador, mais belo (vocês que são fonte de toda luz); que possam me ajudar neste caminho depis da minha vida (após a morte), que possam me levar para um lugar onde vou estar bem, me protejam.
     Quando morrer, me ajudem, protejam, nesse caminho de luz.
     Eu mesmo sou esse Ser.
Comentário: São várias mediações conduzindo a pessoa à morte, à continuidade da morte, sem a liberação. A pessoa tem que ir para vários lugares diferentes.

31- VERSO 17

       vayuranilamamrtamathedam bhasmantam shariram  /
       Om krato smara krtam smara krato smara krtam smara   // 17 //

- VAYU (vayuh) = prana, o ar.
- ATHE (atha) = agora (a pessoa está morrendo, indo embora deste mundo).
- EDAM (idam) = este (vayuh).
- ANILAM = todo o ar.
Comentário: Morte = o prana deixa o corpo físico e se une ao prana cósmico.
     Que o meu ar individual se encontre com o ar total.
     A pessoa está morrendo, mas está consciente.
     O Yogui é aquele que faz todas estas várias meditações para que, no momento da morte, tenha consciência de que está morrendo, e poder conduzir a sua vida para um plano mais elevado.
- SHARIRAM  = (este) corpo físico.
- BHASMANTAM = vire cinzas.
Comentário: Que eu consiga abondonar o apego físico.
- KRATO (kratah) = Ó mente (aquela que é movida pela deliberação).
- SMARA = lembre.
- KRTAM = daquilo que eu fiz.
Comentário:  Ó mente, lembre do que eu já fiz, de tudo que já fiz desde a infância e do meu objetivo último. 
     A pessoa está morrendo e pensando em tudo que já fez, ações feitas, rituais, coisas boas, desejos que teve, para onde quer ir. É uma meditação no final desta vida.
     Que no momento da morte eu consiga deixar tudo para trás e me unir a minha deidade predileta.

32- VERSO 18

       agne naya supatha raye asman visvani deva vayunani vidvan   /
       yuyodhyasmajjuhuranameno bhuyistham te namauktim vidhema   // 18 //

Comentário: Ai então, a pessoa pode ir também por este outro caminho.
     Caminho do sul, o sul é a morte. Quando o sol está passando mais perto do hemisfério sul. Caminho do norte, o norte é a imortalidade; é o caminho de luz.
- AGNE (agni) = fogo. 
     É o mensageiro dos deuses, aquele que leva minhas orações, rituais, oferecimentos, aquele que brilha. Também é um dos nomes de Brahman.
- NAYA = conduza (a nós).
- SUPATHA  = SU (bom) + PATHA (caminho) = bom caminho.
- ASMAN = nós,
- RAYE = (da) luz, (do) bem.
- VISHVANI DEVA  VAYUNANI  VIDVAN = Ó Senhor, conhecendo todas as ações e meditações.
- ENO (enah) = erros.
- JUHURANAM = (Ó Senhor) destrua, livra-me (da minha conta de karmas).
- BHUYISTHAM = foram muitos.
- TE NAMAH = saudações a você (Ó deva).
- UKTIM  VIDHEMA = oferecemos estas palavras (de saudações para que, morrendo neste momento, eu possa encontrar um caminho melhor).

ITI  ISHOPANISHAD = aqui conclui-se a Isha Upanisad.

Om  Shantih  Shantih  Shantih  Om  paz  paz  paz


Texto produzido após estudo dos CD's da Professora e Mestra Glória Arieira sobre a Ishopanishad.




Shri Guru bhyo namah