16 de mai. de 2012


Parte 8
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

21- VERSO 7

       yasminsarvani bhutanyatmaivabhudvijanatah  /
       tatra ko mohah kah soka ekatvamanupasyatah   // 7 //

- YASMIN = (aquele) no qual.
- VIJANATAH = para aquele que possui este conhecimento claro, que tem a visão do Um (Atma); o sábio.
- SARVANI = todos.
- BHUTANY (bhutani) = os seres.
- IVA (eva) = somente.
- ABHUD (abhut) = existe como.
Comentário: YASMINSARVANI BHUTANYATMAIVABHUDVIJANATAH = Qual o conhecimento que o sábio possui ? De que todos os seres são somente Um (Atma).
Obs: Todo o universo se dissolve e nasce, na Consciência. O todo sai desse Um e volta para esse Um.
- TATRA = aonde.
- KO (kah) = que.
- MOHAH = ilusão, confusão (em relação a si mesmo, a verdade desse universo, em relação aos 2 diferentes tipos de desejo).
- SHOKA = (razão suficiente para o) sofrimento ( pensar que é limitado, infeliz, mortal; pensar sobre o que vai acontecer comigo, com meus familiares e amigos; será que vou morrer? ).
Comentário: Moha e Shoka são 2 características do samsara que tem a ignorância na sua semente.
     Quando o samsara está ali, a ignorância e a ilusão estão impulsionando constantemente; sem estes, simplesmente é a vida uma expressão de Ishvara.   
Comentário:  KO  MOHAH  KAH  SHOKA = que confusão e sofrimento ?! Não existe confusão e sofrimento para o sábio.
Comentário: O sábio é aquele que entende a natureza do desejo (que este nasce da ignorância). O desejo é um impulso para realização do karma e nada mais. Este impulso é a própria ilusão. Essa é a natureza do desejo. 
     Vivemos com o constante desejo de conquistar alguma coisa, querer algo. Desejamos ser diferentes do que somos agora, desejamos ser felizes. Essa busca constante da felicidade através dos vários objetos nos mantém no samsara, faz o samsara continuar; assim como o desejo que brota da visão de limitação (ignorância de si mesmo), da mortalidade.
Comentário: Desejando, fazemos uma ação, e desta temos um resultado; temos um novo desejo e fazemos uma nova ação, e assim continua.

     Pensamos: “Vou fazer uma determinada ação porque serei mais feliz”. Assim ficamos como um cachorro querendo morder o próprio rabo, não nos dando conta que somos o próprio rabo. Buscamos felicidade sem nos dar conta que somos a própria.     Não conhecendo o desejo, ficamos constantemente na roda (ciclo) do samsara.
     Quando nosso desejo básico termina (busca de felicidade), quando compreendemos que somos livres de qualquer limitação, livres da mortalidade, ai então, o desejo se torna algo que não me aprisiona, passa a ser apenas um instrumento para vida (para viver a vida), um instrumento para realizar todo esse karma. A razão do desejo obedece a ordem de Ishvara. Compreendendo isso, ficamos confortáveis com nós mesmos, resta somente o desejo de fazer do próprio karma, desejo de fazer, de realizar, de viver, mas não, de ser feliz.
     Quando nos libertamos do desejo de ser feliz de alguma maneira nesse universo, ai então, a ilusão e o sofrimento se vão.    
Comentário:  2 diferentes tipos de desejo:
     a) desejo de realizar.
     b) desejo de ser feliz através da realização.
Comentário: Quando descubro que este Ser que é pleno (que não necessita de algo novo, de vários objetos, de mudança, de ser diferente, ser feliz) já é conhecido por mim, ai então, o desejo (de ser feliz através da realização) se vai e apenas resta o desejo (de realizar).
     Para aquele que possui este conhecimento, a vida, o corpo, a mente, a personalidade, a maneira como eu sou, são apenas decorações. Toda a natureza é uma decoração em Ishvara, que é Atma.
- ANUPASHYATAH = para esta pessoa que vê.
- EKA = o Um.
- TVAM = você mesmo.
Comentário: EKATVAMANUPASHYATAH = aquele que vê (muito claramente) esse Atma como a si mesmo.
Comentário: TATRA  KO  MOHAH  KAH  SHOKA  EKATVAMANUPASHYATAH = Aonde está a ilusão e o sofrimento para aquele que (claramente) vê a si mesmo (como) esse Um (Atma).  (Não está, não existe!).

22- VERSO 8

sa paryagacchkramakayamavrana - masnaviram suddhamapapaviddham  /
kavirmanisi paribhuh svayambhu - ryathatathyato´rthan vyadadhachasvatibhyah samabhyah // 8 //

- SA PARYAGAC (paryagat) = aquele que está em todo lugar.
- CHUKRAM = aquele que é brilhante (como a Consciência).
- AKAYAM = aquele sem um corpo específico.
- AVRANAM = aquele sem machucado (pois não tem um corpo físico nem uma mente sutil/emocional para ser machucado).
Comentário: Somos machucados, feridos, marcados fisicamente e emocionalmente através de várias situações que marcam nossas próprias vidas e ficam ali guardadas.
- ASNAVIRAM = aquele sem vasos sanguíneos, sem nadis (condutos de energia).
- SNAVA = nadis (condutos de energia no corpo).
- SHUDDHAM = aquele que é puro (jamais será poluído).
Comentário: O ar, terra, água podem ser poluídos mas o espaço não (assim como a Consciência).
- APAPAVIDDHAM = aquele que é livre de papam (demérito) e punyam (mérito).

Comentário:  O corpo e a mente fazem a ação e, ambos recebem mérito e demérito; a Consciência é akarta, não faz ação e, portanto, não recebe punyapapam.
- KAVIR (kavih) = aquele que vê sempre, a testemunha (saksi).
Comentário: Ver e não ver é a dualidade. Atma é aquele que vê sempre, está além da dualidade.
- MANISI = aquele que está por trás da mente (que permite á mente pensar).
- PARIBHUH = aquele que está além de qualquer existência, que existe sempre, sempre é.
- BHUH = tornar-se, vir a ser.
- SVAYAMBHU (svayambhuh) = aquele que nasceu por si mesmo, que não depende de nada, que existe por si só.
Comentário:  
 SA RYAGACCHKRAMAKAYAMAVRANA-MASNAVIRAM SUDDHAMAPAPAVIDDHAM
     Essas várias palavras na primeira linha do verso 8 estão descrevendo o Atma.



Parte 7
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

19- VERSO 5

     tadejati tannaijati taddure tadvantike  /
     tadantarasya sarvasya tadu sarvasyasya bahyatah   // 5 //

- TAD (Tat) = Ele, Aquele (Atma).
- EJATI = se move (porque quando o corpo ou o pensamento se move parece que a Consciência se move).
Comentário: Um pote de barro de 5 litros tem um espaço de 5 litros. Quando o pote se move parece que o espaço também se move mas o espaço, de fato, não se move, é o fato que se move.
- DURE = muito distante.
     Para as pessoas que não conhecem esse Atma, Ele está muito distante.
- VANTIKE = mais próximo (perto).
     É aquilo que está mais próximo porque é você mesmo. Na verdade, não está distante nem próximo.
     Esse Atma é você, é a sua natureza. Então, Ele está mais longe e mais perto ao mesmo tempo.
- TADVANTIKE = com certeza é aquilo que está mais perto de você.                               

     TAT + U + ANTIKE ;              U + A  =  V + A

- U = de verdade, verdadeiramente, com certeza.
- TANNAIJATI = TAT + NA + EJATI = Ele não se move.
- ANTAR (antah) = dentro (de todas as coisas).
- ASYA = disso, deste.
- SARVA = tudo, todas, todos (que existe, as pessoas, os seres, os nome/forma, os pensamentos).
- TADU = TAT + U
- BAHYATAH = externamente (a todas as coisas porque permeia todas as coisas).
- BAHYA  = externo, fora.
Comentário:  Atma está dentro mas também fora.
     Interno (dentro) e externo (fora), na verdade, são conceitos a partir de um ponto de referência. Não tem nada que esteja interno ou externo ao Atma, pois permeia tudo.
- TADANTARASYA  SARVASYA  TADU  SARVASYASYA  BAHYATAH = (Em relação a esse corpo, a tudo que existe) ele é aquilo que está dentro (iluminando-o) e também o que está externamente (a todas as coisas).
Comentário:  Vyapaka = que está em todo lugar.

20- VERSO 6

       yastu sarvani bhutanyatmanyevanupasyati  /
       sarva bhutesu catmanam tato na vijugupsate   // 6 //

Comentário: Tudo que vemos na Gita foi tirado de uma Upanishad porque é mais antiga e mais autoridade. Este verso 6 por exemplo.
- ANYAH = outra, outros (pessoa).
- ANUPASHYATI = (Essa pessoa, aluno, mumuksuh) vê seguindo alguma coisa (Vedas) ou alguém (pessoa que ensina); vê a partir de uma tradição de ensinamento.
- PASHYATI = ele vê.
     Você não vê por conta própria, vê conforme o ensinamento da tradição, vê junto. Quando você vê por conta própria você faz uma interpretação pessoal.
     Seguindo toda essa tradição de ensinamento, essa pessoa (mumuksuh), por fim, vê (compreende, entende o ensinamento que está sendo passado), faz o conhecimento se tornar dela.
- SARVANI = todos.
- BHUTANI = os seres.
- ATMANY (atmani) = (vê) em si mesmo (eu sou Atma mas Ele não é este localizado neste corpo, é aquele que está dentro e também fora).
Comentário:  Essa pessoa vê Atma em todos os seres, como a verdade de todos os seres, e vê todos os seres no Atma. Vê a verdade que é livre de limitação, que é Atma. Essa é a visão:  Aquele que está aqui e em tudo.
- CA = e.
- EVA = certamente, somente.  Tudo é somente Atma.
- TATO (tatah) = aí então.
- NA VIJUGUPSATE = não precisa se proteger, não tem aversão a ninguém.
- GUP = proteger.
- JUGUPS = desejar se proteger de alguém (dos outros).
     Tento proteger-me do outro (do segundo, segunda pessoa) que é uma ameaça porque me faz sentir medo, medo da limitação, pois me faz ver a dualidade que pode me limitar de alguma maneira. Então, uma limitação, qualquer que seja que exista no Atma, leva a mortalidade, penso que vou morrer. Se sou limitado, vou morrer. Dessa maneira tenho medo da morte, da transformação, do fim, da carência, etc.
     O outro se torna uma ameaça para mim, para meus desejos, para minhas necessidades. Então, preciso me proteger, nasce o desejo de proteção.
     Essa pessoa que vê o Atma, vê tudo Nele e O vê em todos os lugares, não precisa se proteger, não vê nada como algo antagônico a si mesmo.

Parte 6
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

- PRETYA = depois que sai dessa vida para outra (tendo morrido).
- ABHIGACCHANTI = vão.
- YE KE JANAH = Quem são essas pessoas (que ficam na escuridão e continuam nela)?
- ATMAHANAH = pessoas que “matam” o Atma (eu), a si mesmas. O “Eu” que matam não é o corpo, nem as idéias; é SATCITANANDA Atma, o Eu que é real, que é livre de limitação, que é Absoluto.

18- VERSO 4

     anejadekam manaso javiyo nainaddeva apnuvanpurvamarsat   /
     taddhavato'nyanatyeti tisthattasminnapo matarisva dadhati   // 4 //

- ANEJAD (anejat) = imóvel, que não se move, não vai para lugar nenhum (Atma).
Comentário: Atma é a Consciência (Chaitanya). Essa Consciência é a base de tudo o que existe. Esse Atma, que é Brahman, que é Chaitanya.
     Atma não vai para lugar nenhum porque não tem lugar para Ele ir. Todos os lugares, o espaço, existem Nele; Ele não existe no espaço, é a base do próprio espaço. Não tem lugar onde a Consciência não esteja, Ela está em todo lugar. Então, não tem para onde ir.
- EKAM = única.
Comentário: Não existem 2 consciências, existe uma única, um único Eu; e esse Eu que sou eu, é o mesmo eu que todas as pessoas dizem: “eu”.
- MANASO = a mente.
- JAVIYO (javíyah) = mais rápida.
- MANASO JAVIYO = (esse Atma é) mais rápido que a mente.
Comentário: Do que a gente conhece, a mente é a coisa mais rápida, mas esse Atma é mais rápido que a mente.
     A mente é muito rápida, muito mais que o corpo, mas mesmo assim tem que se locomover. Se você pensa (ou lembra) num lugar, você já chegou nesse lugar; o corpo não, ele demora. O corpo se locomove fisicamente e a mente se locomove em termos de pensamento, mas o Atma, Ele já é, é a base de todo o universo, está em todos os lugares; Ele é o mais rápido, nesse sentido.
     A consciência (luz) da mente é a consciência refletida do Atma que é a luz sempre presente.
Comentário:  Nesse mundo nós desejamos, planejamos, agimos e esperamos (pelo resultado).
     As vezes, quando o resultado vem, a gente nem quer mais!
- DEVAH = aqueles que brilham (os 5 sentidos).
     O olho brilha iluminando formas e cores, o ouvido ilumina os sons, o nariz ilumina os cheiros, a língua ilumina os sabores e, a pele ilumina as texturas e temperatura, dos objetos.
- NA = não.
- APNUVAN = conseguem alcançar (iluminar, experenciar).
- INAD (enat) = esse Atma.
Comentário: Os (cinco) sentidos conseguem alcançar (experenciar) os (vários) objetos mas não alcançam o Atma (Consciência) pois este não é um objeto, é o sujeito (dos próprios sentidos), aquele devido ao qual os sentidos funcionam. A luz dos sentidos é a luz refletida do Atma que brilha por si só, que é a própria luz.
- PURVAMARSHAT = (já) voou (antes), já esteve ali.
     Qualquer coisa só pode ser conceituada, só pode existir, na Consciência. Então, a Consciência tem que estar lá primeiro para que qualquer objeto possa existir depois. A Consciência já estava lá (antes de qualquer conceito).

Comentário:  Então, o Atma é aquele que é único (um só), que é imóvel, que é mais rápido que a mente, e nenhum sentido consegue alcançá-lo (experiência-lo).
- TAD (Tat) = (Ele) então.
- DHAVATO (dhavatah) = aquele que está correndo.
- ANYAN = outros.
- ATYETI = ultrapassa.
- TISHTHAT = permanecendo imóvel.
- TADDHAVATO´NYANATYETI TISTHAT = Ele (Atma), então, permanecendo imóvel, ultrapassa os outros (mente e sentidos) que estão correndo (para alcançar um objeto).

Comentário:  O Atma (Consciência) chega mais rápido porque já está ali presente.
     Não se pode pensar (mente) sem Consciência, nem ver (sentidos), nem escutar; Ela está sempre presente, é a verdade, é tudo que existe.
Obs: Existe uma estória que diz que Kartikeya estava brincando com seu irmão Ganapati (Ganesha) na presença dos pais Shiva e Parvati. Kartikeya é deus da guerra, ágil, veloz e rápido; Ganesha é um elefante, lento e devagar. Kartikeya sugere a Ganesha uma corrida para ver quem conseguiria dar uma volta no mundo inteiro mais rapidamente e Ganesha responde dizendo que vai ganhar. Assim que o irmão acaba de falar, Kartikeya parte bem rápido, na frente, para dar sua volta. Ganesha, devagar, anda em direção a seus pais e dá uma volta neles, e fica esperando o irmão retornar. Kartikeya retorna rapidamente e vendo seu irmão ali parado pergunta o que ele está fazendo ali. Ganesha responde que já tinha cumprido a tarefa, pois deu a volta ao redor de seus pais Shiva e Parvati, que representam o mundo inteiro.
- TASMIN = existindo (nesse).
- APO (apah) = água, chuva, líquido.  (Essa palavra simboliza rituais e ações diferentes).
- MATARISHVA = aquele que é como o prana (que mantém toda a vida). Prana é chamado sutratma, aquilo que é como um “fio”, que conecta todas as coisas, seres, pessoas. O prana é aquilo que mantém vivo, que sustenta tudo (a vida).

            Matari = no céu, no espaço  +  Shva = (aquele) que se move  =  Prana.

- DADHATI = fornece (mantém).
- TASMINNAPO  MATARISHVA  DADHATI = Essa Consciência, assim como o Prana, mantém todas as atividades funcionando (existindo) nesse universo.
Comentário:  Este verso 4 diz que existem duas formas de olhar o Atma. 
     a) Upadika: através do corpo e da mente. Então, Ela parece que se move, que aumenta, diminui, etc.
     Através do corpo e da mente, a Consciência se transforma, parece correr, andar, aumentar, desaparecer (sono), etc. Isso tudo é a Consciência condicionada pelo corpo, mas de fato, Ela é livre do corpo, somente parece que está aprisionada ao mesmo. 
     b) Nirupadika: sem qualquer limitação, condicionamento. A Consciência que existe sempre, que é pura Consciência, não associada a nada, que é única, sem forma. 
Comentário: A individualidade ocorre pois olhamos a partir do corpo mas a liberdade (ser livre) é quando olhamos a partir do ponto de vista da Consciência. Que nem o espaço, quando dentro de uma sala, que do ponto de referência das paredes está aprisionada mas quando o ponto de referência é o espaço em si, não se pode dizer que está preso entre as paredes. O espaço não está preso nas paredes, as paredes estão no espaço.
Comentário: A Consciência parece se mover mas de fato, Ela é imóvel; parece múltipla mas é única; parece aprisionada mas é livre.
Comentário:
- verso 1 = fala sobre as pessoas que buscam o conhecimento (mumuksu) e sua importância.
- verso 2 = fala sobre as pessoas envolvidas na ação e que buscam satisfazer vários desejos.
- verso 3 = fala sobre as pessoas ignorantes (asuryah) que estão encobertos pela escuridão. Diz que estas pessoas matam (destroem) o Atma pois o ignoram.
- verso 4 = Diz que o Atma é aquele que é imóvel, mais rápido que a mente e os sentidos não conseguem percebê-lo (alcançá-lo).



Parte 5
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

Obs: Sentar e estudar são a única maneira de lidar com o ego (ahamkara), de outra maneira, você estudando sozinho, o ego só cresce (ex: “eu sou autodidata”, “li e aprendi tudo melhor que qualquer pessoa”).
     Como uma forma de ter humildade, nós nos sentamos e nos dobramos a tradição do ensinamento. Nós não nos dobramos para aquela pessoa que está nos ensinando, ela é apenas um veículo, um instrumento, nos dobramos a tradição do ensinamento.
     A única maneira de você se dobrar é através de você se colocar nessa linhagem de estudo. Nessa atitude de querer extrair daí esse segredo (dos Vedas), essa mensagem, esse conhecimento; o ahamkara está sendo dobrado. Por isso é falado no verso inicial da Gita dhyanam, antes da Gita: “sarvopanishado gavo doghdha gopalanandanah”  =  todas as Upanishads são (como) vacas e gopala (Krshna) é aquele que extrai o leite (essência da vida), que ordenha a vaca (ordenhar parece que é fácil mas quando vamos pessoalmente tentar, vemos que não é tão fácil). Krshna é o ordenhador e nós, os bezerros que se dispõem a beber o leite.
 
17- VERSO 3

   asurya nama te loka andhena tamasa 'vrtah  /
   tamste pretyabhigacchanti ye ke catmahano janah  // 3 //

Comentário:  Neste verso vemos o desdobramento do verso 1.
Obs:  Mundaka Upanishad diz que existem 2 tipos de conhecimento:
   a) do Absoluto. Aquele que uma vez conhecendo (adquirindo) esse conhecimento, acabou, o conhecimento está adquirido (ganho); então, do que você adquiriu, nada mudou, porque o Absoluto não muda. O objeto de conhecimento é completo e imutável, nunca muda.
     b) do relativo.  Aquele que é mutável, não tem um fim, não tem nenhum dia que você diga que acabou, pois mesmo que tenha estudado sobre tudo disponível no mundo (que já é difícil!) de algum determinado assunto (ou objeto), ele muda e, então, tem mais coisa para saber e que você não sabe mais. Esses que possuem este conhecimento são considerados ignorantes (em relação ao Absoluto).
- ASURYAH (asuras) = ignorante (aquele que não possui o conhecimento).
Obs:  Asuras e Devas são 2 termos que aparecem nos Vedas e na Gita (cap. XVI).
     a) Asura: pessoa que é negativa, destrutiva, que tem prazer em destruir, que é confusa, iludida. Aquele que não tem conhecimento, todos os ignorantes.
   b) Deva: palavra derivada da raiz “div” = brilhar.  Pessoa que brilha (porque tem clareza de conhecimento, em relação aos valores), que tem a capacidade de agir para com outra pessoa considerando-a como a si mesma, seguindo os valores universais. Aquele que possui conhecimento.
Comentário: A Gita diz que as qualidades de Deva conduzem ao conhecimento e, as de Asura mantém a pessoa na ignorância e na confusão.
Comentário: O objetivo do verso 3 é fazer uma crítica ao ignorante (que se mantém na ignorância), dar uma “sacudida”, “acordá-lo”. Fazer com que essa pessoa enxergue o objetivo maior da vida que é o autoconhecimento, mostrar que é isso que se deve fazer e seguir (assim como faz Krshna a Arjuna na Gita). Esta Upanishad está fazendo isso.
     Ignorante todo mundo é mas se você mantém a sua ignorância em relação ao “Eu”, você está destruindo a você mesmo, é um “suicídio”. Um suicídio no sentido de que você está matando o Atma, ignorando-O (sua natureza fundamental eterna). Na ignorância nós ignoramos o Atma, eliminamos do nosso vocabulário, da nossa vida. Ignorante também é aquele que não faz nada para sair da roda do samsara.
- ASURYAH NAMAH = Essas pessoas que são chamadas de Asura.
    Essas pessoas não só não reconhecem o Atma como não sabem que existe um Atma e que este deve ser conhecido. Sendo conhecido, você vai se libertar de todo o sofrimento, toda a confusão.
     Essas pessoas então, estão completamente envolvidas nessa escuridão.
- AVRTAH = encobertos (completamente).
- ANDHENA TAMASA = total (grande) escuridão.
- TE LOKAH = mundos, nascimentos (vários).
Comentário: Devido a essa grande escuridão da ignorância, essas pessoas têm vários nascimentos e perpetuam essa escuridão. Nascem na escuridão e terminam a vida nela. Vivem muitas experiências diferentes, buscam muitas coisas diferentes, têm vários objetivos, mas todos dentro de artha, kama e dharma. Não fazem nada para sair da ilusão (confusão).
     Têm vários nascimentos encobertos por total escuridão.
  Comentário:   No Mahabharata, Dhritarashtra (pai de Duryodhana e tio de Arjuna) nasceu cego. Num determinado momento, Vyasa o oferece a capacidade de ver (o que está acontecendo no campo de batalha) além, mas ele recusa. Ele estava na escuridão e opta por manter-se nela.


15 de mai. de 2012


Parte 4
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

Comentário:  De onde vem a multiplicidade? Dualidade? Variedade de coisas?
     A dualidade é como no sonho. No sonho você é o sonhador, o sonhado e as pessoas do sonho. Tudo é uma única coisa. Da mesma maneira, todo esse universo é Ishvara.
          Sonho   ------------     você
     Universo  ----------     Ishvara
     Você é o sonho, a causa do sonho, os objetos do sonho e, a causa inteligente e material.

     16- VERSO 2

     kurvanneveha karmani jijivisecchatam samah  /
     evam tvayi nanyatheto ´sti na karma lipyate nare  // 2 //

- KURVANNEVEHA = KURVAN EVA IHA
- IHA = aqui (neste mundo).
- KURVAN = fazendo (várias coisas, ações diferentes). Ex: ação de ver, de pensar,etc. Quando acordamos de manhã já fazemos várias ações como, por exemplo, abrir os olhos. Ações são feitas para conquistar coisas diferentes, isso é a vida. Nessa vida, o que você vai fazer, vai buscar artha, kama, dharma.
- EVA (evam) = realmente.
- JIJIVISET = você deve desejar viver (uma vida longa, com saúde, bem, com uma mente funcionando bem, com prazeres). Que você deseje viver, que você faça por onde, que você planeje viver. Desejar viver é planejar para isso.
- CHATAM = cem.
- SAMAH = anos.
- NARE (nara) = ser humano (você).
- ANYATHA = outra (forma de fazer as ações).
- ITAH = além desta (ação).
- TVAYI = como você.
- ASTI = existe.
- NA = não.
- KARMA = ação.
- LIPYATE = grude.
- NA KARMA LIPYATE NARE = que essa ação (os resultados dessa) não grude em você. Que você faça (possa fazer) as ações (positivas) e que os resultados (de uma ação negativa, papam) não grudem em você. Que você faça dharma, que faça punya karma (punya krta karma), uma ação que vai produzir mérito para você.
     O que “gruda” na gente é o resultado da ação. Se você faz uma ação positiva, o resultado da ação vai ser mérito (punyam) e vai grudar em você, na sua bagagem de karma.   
Comentário: Não tem outro método para que nossos desejos sejam satisfeitos a não ser, fazer a ação.

Comentário: Mérito é sempre bom porque, no mundo, “abre portas” e resolve situações. Ações positivas “abrem caminhos” na forma de uma vida mais fácil, na forma de discriminação, maior objetividade, adquirindo aos poucos um questionamento que nos conduz a liberação.
Comentário: O resultado da ação é de 2 tipos:
     a) PUNYAM = mérito, alegria. Vai causar situações agradáveis.
     b) PAPAM = demérito, sofrimento. Vai causar situações desagradáveis.
Comentário: O único meio de adquirir algo que você queira é através da ação. Toda ação envolve um resultado.
Comentário:      
     VERSO 1:  Pessoa que quer conhecer esse Atma, que é Ishvara. Deseja conhecer, adquirir este conhecimento (autoconhecimento). Para adquirir este conhecimento devemos renunciar a todos os outros envolvimentos e dedicarmos, tanto quanto possível, o foco no estudo.
     Fala sobre a pessoa que possui conhecimento, sobre o desejo do conhecimento e a pessoa que adquiri esse conhecimento (de que todo o universo é permeado por Ishvara, pela sua causa que é Brahman).
     Todas as coisas que se movem sabemos que são os seres vivos; se movem, têm sensibilidade, tem capacidade de movimento, e neles existe a consciência que é Brahman; e naqueles que não se movem, como a montanha por exemplo, também existe a mesma Consciência pois ela é a base de todo o universo, tudo existe nessa Consciência.
     Essas pessoas devem se dedicar completamente a esse conhecimento, ele merece, exige sua dedicação, seu compromisso porque na medida em que valoriza esse conhecimento, você dedica seu tempo e mais facilmente é alcançado, entendido por você.
     VERSO 2:  Pessoa que quer várias coisas diferentes, é aconselhado que se faça a ação, que se envolva com cada vez mais coisas para que possa produzir tudo aquilo que quer.
     Veja quais são seus desejos, o que você quer, e faça um plano de ação nesse mundo para que você possa satisfazer todos esses seus desejos.
     Pessoa que ainda não desenvolveu o desejo por esse conhecimento.
     Que essa pessoa que busca várias coisas diferentes, envolvida com muitos desejos, cuide dessa vida, do corpo, da mente, para que possa viver 100 anos (e aos poucos amadurecendo, questionando seu próprio objetivo e onde quer realmente chegar, o que quer realmente conquistar).
      Comentário:   VEDASYA RAHASYAM = o segredo dos Vedas.
     O segredo dos Vedas é o conhecimento na forma que ele se apresenta, onde você lendo, somente com o conhecimento de sânscrito, você não entende. O segredo dos Vedas vem através da metodologia do ensinamento, através de sentar e estudar. O segredo é revelado pela tradição oral.
     Esse ensinamento vem através de paradoxos, diz que: “não é isso, mas também não é aquilo, entretanto é alguma coisa no meio do caminho entre os dois”, então, nós temos que entender o que é. O segredo nasce do entendimento dos paradoxos.

Parte 3
Isha Upanishad
(Ishopanishad)

   - TENA  TYAKTENA  BHUNJITHA  MA  GRDHAH  KASYASVIDDHANAM  =  libertando-se do desejo pelos objetos, que você possa proteger/descobrir a você mesmo; proteger o ATMA através do estudo.
     - TYAKTA = desapego (em relação aos objetos e, outras buscas que não sejam moksha);  Tyaga = renúncia.
     - TENA = através do.
Comentário:  Querer algo é um desejo.
                     Não querer algo também é. Você quer que algo fique longe.
Comentário: Analisar o “antes” de sair atrás de um objeto e o “depois” que o objeto foi alcançado. Através dessa auto-análise pode-se entender muito de si mesmo.
          O questionamento (análise/VICARA) desenvolve desapego (VAIRAGYA).
     - TENA TYAKTENA = através desse (do) desapego. 
        Quer dizer:  se apegando somente ao estudo e ao conhecimento. Se desapegando de todas as outras coisas. Se desapegando de artha, k€ma e dharma , e se apegando a moksha. Colocando os 3 primeiros purush€rthas em segundo plano.   
     - BHUNJITHAH = você deve/vai proteger (o Atma) (através do conhecimento).

          Quando você deseja um conhecimento, você vai atrás de alcançar esse conhecimento. Quando alcança, você está preservando o conhecimento. Quando adquiri o conhecimento, você está carregando-o para o futuro. Outra pessoa vem e aprende de você.
          De acordo com o ensinamento, o conhecimento é preservado somente pelo estudo e pela vivência das pessoas. Quando algo é conhecido por mim, é preservado por mim. Proteger um conhecimento é viver uma vida neste (aplicando o) conhecimento.
        O conhecimento, para ser protegido, tem que ser estudado e vivido.
        Gita: “minha vida é (deve ser) um reflexo desse conhecimento que eu valorizo”.

Obs:  Atma é a Consciência.
Comentário:  DHARMA  RAKSHATI  RAKSHITAH = O dharma protege os (as pessoas) que protegem o dharma.  A única maneira de proteger ( = fazer ficar vivo ) o dharma é viver uma vida de dharma.  Dharma = valores universais (viver uma vida de valores).
  
    - MA  GRDHAH  KASYASVIDDHANAM = não deseje qualquer que seja de alguém a riqueza.   
     - DHANAM = riqueza (qualquer objeto).
     - KASYA = de alguém.
     - KASYASVID = de quem quer que seja.
     - MA GRDHAH = não deseje (os objetos do universo) (seja do segundo grupo de pessoas , aqueles livres de desejos). 

Comentário:  Pré-requisitos para aprofundar o estudo de Vedanta:
- Tattvabodhaƒ e Gita não possuem contradição aparente, são textos mais claros para entendermos. Já as Upanishads possuem termos que confundem. No momento em que começamos a estudar as Upanishads, já temos que ter desenvolvido certa compreensão da base de Vedanta, e ao  mesmo tempo uma confiança no texto, na pessoa que ensina e na tradição de ensinamento, para sabermos que tem uma lógica, que o estudo é coerente.
  As Upanishads têm uma linguagem diferente da Gita. A Gita é direta e mais fácil de entender.
  Upanishads: “O Criador (a) criou a criação (b)”. 

       a + b = “2” ?      Surge uma dualidade!

  BARRO  x  POTE 

     “O barro criou o pote.” No momento em que se criou o pote, o barro já estava ali dentro. O barro cria o pote; ele é a causa material do pote.

Obs:  Para todas as coisas criadas existem 2 causas:
     a)  causa material
     b)  causa inteligente (inteligência/consciência)
     O material da criação é o mesmo material do criador. Esse Criador é SAT, existe sempre; é CIT, que é consciência (consciência livre de limitação); é ANANTAM (ANANDA), que é pleno (completo). SAT- CIT- ANANDA é a natureza da causa da criação que é não separada de mim mesmo (Atma), que sou eu; que é a verdade básica de todo o universo.
      Isha = Ishvara (que é SAT-CIT-ANANDA).